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Chavena de Chá das Cinco

Uma chávena de chá, um prato com biscoitos e conversas intermináveis

Chavena de Chá das Cinco

Uma chávena de chá, um prato com biscoitos e conversas intermináveis

12
Jul18

Os Incríveis 2 | Um filme para miúdos... e graúdos

14 anos após o lançamento do primeiro filme, a Pixar regressa com a sequela para "Os Incríveis", que fez parte da infância das crianças dos anos 90 e início dos anos 2000. 

"Os Incríveis 2" conta com melhores gráficos, mas continua a ser composto pelos mesmos ingredientes que fizeram com que tivesse sucesso na sua versão pioneira - trata-se de um balanço entre um filme de animação e super-heróis que salvam o mundo. Uma espécie de produção Marvel para os mais novos que tem vindo a despertar o interesse dos crescidos que assistiam ao primeiro filme enquanto comiam a "sopinha" e para aqueles que são os fãs dos dias de hoje. Sejamos sinceros, quem não gosta de um bom filme de super-heróis?

Mas o que torna esta longa-metragem tão especial? Penso que a resposta é um tanto ou quanto óbvia. Qual é o filme da Pixar que não possui uma mensagem por trás que é do agrado dos mais velhos? Bem me pareceu, posso adiantar que este não é exceção.

Ora, entrando em pormenores, começamos o filme com a informação que durante 15 anos os super-heróis eram ilegais, e como tal não podiam agir de forma a colaborar com a polícia e salvar os seres humanos. Perante a injustiça que faz com que os nossos heróis tenham que esconder a própria identidade e as suas habilidades extraordinárias, o mundo divide-se entre aqueles que acreditam na legalização dos protetores, e aqueles que acreditam que estes só trazem desgraças e complicações.

É aqui que a Pixar esconde a sua mensagem, sussurrando ao ouvido dos mais novos "Crianças, lutem por aquilo que acreditem porque ninguém o fará por vocês. Não se conformem e vão à luta, defendam aquilo em que acreditam e não parem até conseguirem conquistar isso mesmo", que tão maravilhados sugam cada segundo do filme. 

Sendo apoiados por um homem poderoso que traçou um plano para os ajudar a voltar ao ativo, os nossos super-heróis vão provar a todos os políticos que merecem levar o crédito e exercer aquela que é a paixão deles - ajudar, salvar e proteger aqueles que não o podem fazer.

E mais uma vez, a Pixar aproveita esta situação para desafiar a sociedade em que vivemos, dando-nos uma grande chapada de luva branca, tornando a Mulher Elástica a salvadora do povo e representante dos super-heróis, aquela que vai em missão para mostrar ao mundo que, ao contrário de como os media faziam parecer, ela e todos os seus companheiros tinham apenas como único objetivo proteger, salvar e cuidar daqueles que não o podiam fazer sozinhos.

Ao longo do filme somos confrontados com as dificuldades que a heroína sente ao estar longe dos seus filhos em trabalho, o que retrata a realidade de algumas mulheres. É interessante como sente mais dor ao estar longe da sua família, do que ao lutar contra os inimigos que a atormentam.

Por outro lado, assistimos a um Sr. Incrível ligeiramente afetado pelo facto de não ter sido ele o escolhido para a missão, mas também a um homem que tenta ser um bom pai e lidar com os seus três filhos e com as situações que estes o fazem passar - o namoro da filha que deu errado, a matemática que mudou e o faz não perceber nada do assunto, e a questão de ter um bebé que precisa de imensos cuidados, mas também de imensa atenção pois é uma autêntica bomba-relógio.

No geral, é um filme que contraria muito aquilo que vivemos na atualidade. Ainda que a mulher já tenha um emprego, as lidas da casa e o cuidado dos filhos recai sempre sobre ela, assim como o trabalho mais ausente sobre o homem. Mostra que ambas as figuras são capazes de conseguir desempenhar os papéis contrários igualmente bem, trazendo uma noção de igualdade.

Se é um filme feminista? Mostra, de facto, a emancipação da mulher, mas não considero que seja feminista. Acho que se trata de um apelo à mudança de mentalidades nas novas gerações para que se demonstre uma valorização igual de ambos os sexos.

Se vale a pena ver? Claro, recomendo bastante. Foi um filme que valeu cada cêntimo que dei para assistir, desafio-vos a vocês (mesmo que seja em casa) a perder um pouco do vosso tempo para darem umas boas risadas, pois independentemente da mensagem, é um filme alegre e divertido que me deixou soltar umas risadas.

 

 

10
Jul18

Os complexos de uma adolescente do século XXI

Trago hoje ( e a horas indecentes) um post muito mais emocional e pessoal que aquilo que gostaria. Raramente me abro acerca do meu corpo ou da minha aparência física. Já me ouviram falar dezenas de vezes sobre a escola e têm noção (isto porque eu decido mencionar) que tenho algumas problemáticas muito pessoais. Hoje, inspirada por um vídeo da Rita Serrano, uma youtuber portuguesa que admiro imenso, apesar de não a acompanhar "religiosamente", decidi partilhar convosco os meus complexos.

É de conhecimento geral que toda esta onda das redes sociais e do crescimendo do ramo da moda e da ascenção dos grandes estereótipos de beleza (que apesar de existirem há muitos anos, têm conquistado uma grande supremacia no nosso dia a dia), tem causado aos jovens doenças do foro piscológico que podem ir de doenças comuns para este século (não desvalorizando as suas consequências), como a ansiedade e a depressão, até a doenças que ainda com origens psicológicas se manifestam fisicamente, como os distúrbios alimentares (e isto inclui anoréxias nervosas, bulímias nervosas, obesidades e muitos outros. Sim, antes que alguém estranhe, a obesidade é um distúrbio alimentar que aumenta em massa a cada dia).

Para quem me segue há pouco tempo, provavelmente não tem noção de como sou fisicamente. Vou passar a uma breve descrição não muito detalhada, pois isso virá com os meus complexos. Sou uma rapariga relativamente baixa, dependendo da ideia de cada um, de cabelos ruivos médios, olhos castanhos, algumas sardas, mas possuo uma estrutura óssea bastante larga só por mim mesma.

Assim, para se enquadrarem ligeiramente e criarem uma ideia de quem sou, posso começar por então expandir o assunto e começar a falar dos dois aspetos que mais me "tiram o sono" - dentes e corpo (figura).

Começando por aquilo que não me vai fazer alongar muito, que são os dentes. É muito simples, tenho os dentes meios amarelos por motivos que estão explicados aqui em baixo, e perante a falta de capacidade que tenho em fazer um branqueamento (porque isto o dinheiro não estica e há coisas bem, bem mais importantes que ter dentes brancos), assim ficarão até ao dia em que poder fazer algo para o mudar. Juntando mais lenha à fogueira, tenho uma ligeira (quase impercetível) sobreposição de um dente sobre outro, ainda assim como não se nota praticamente nada, eu nem uso aparelho (nem faria sentido, tenho todos os dentes perfeitinhos, não valia a pena gastar dinheiro por uma coisinha de nada). Mas isto não é algo que me faça sentir terrível, claro que me entristece porque todas as minhas amigas têm dentes branquinhos e eu não tenho, no entanto não impacta assim tanto a minha confiança. O que sim impacta é que eu tenho uma mancha bastante notável no meu dente da frente, e quando digo notável, é caso para abrir a boca e se notar de imediato. Isso custa-me bastante porque é uma caraterística minha e não há mesmo cura possível, nasceu e vai morrer comigo. E essa sensação de impotência e de ter que ouvir comentários como "Se lavasses os dentes talvez ficassem mais brancos e tirasses essa mancha horrorosa" não é lá muito agradável.

Indo agora para a parte que mais me perturba que é o meu peso e o corpo que tenho. Há uns tempos, expus a situação e tentei lidar com ela utilizando uma rubrica que acabou por morrer, eu simplesmente decidi que era algo demasiado pessoal para partilhar, posso sempre partilhar uma coisa ou outra, mas não tudo. 

Continuando, eu tenho 16 anos como se sabe, e durante estes meus 16 anos de vida se há coisa que eu nunca fui é magra. Não me lembro de ter sido magra e não há fotos minhas em que estou magra. E muito sinceramente, nunca vou poder ser uma rapariga magrinha porque nem os meus ossos permitem. Faz parte de mim e não posso mudar o meu metabolismo que só consegue fazer-me engordar ou os meus ossos que teimaram em ser largos. O que posso tentar controlar é o meu peso, o que é bastante difícil porque parece que só de respirar fico mais inchada que um balão. E eu sei que parece que lido muito bem com isto, mas não lido nada, mas é que mesmo nada bem.

Desde criança que tinha problemas com o meu peso. Ficava muito envergonhada quando tinha que me pesar em frente dos meus colegas (raio da escola também tinha que fazer testes destes), ou usar o meu peso como dado para alguns problemas de matemática (raio da professora sem imaginação nenhuma). Brincar no recreio era complicado porque as meninas não gostavam de mim porque eu não era tão magrinha quanto elas, e os rapazes simplesmente gostavam de me comparar às outras e fazer piadinhas. Com o tempo habituei-me mas ainda custa ouvir algumas coisas.

Entretanto, chegou a maldita da adolescência. O primeiro contacto com as redes sociais e com os estereótipos que me eram impostos. Porque em criança, ser gordinha até é fofinho, mas não em adolescente ou adulta. Comecei a ganhar uma doentia obceção com o meu corpo e a reparar que efetivamente, eu era gorda (isto porque até lá eu achava que era igual às outras e não tinha a perceção de ser assim tão diferente). Só pensava nas calorias que ia ingerir, qualquer saída com as minhas amigas elas comiam as gordices todas como gelados e porcarias de todos os tipos, eu bebia água (de sabores se estivesse num bom dia). Olhava muito ao espelho e era maníaca não tanto com o peso, mas com a minha aparência, o que as pessoas viam. O problema era o facto de eu me ver de forma diferente. Assim, tive um início de anoréxia, que acabou por não durar muito tempo. É aqui que chegamos aos dentes amarelos.

Por volta dos meus 14 anos ou algo assim, descobri que se vomitasse poderia comer mas ainda assim emagrecer, o que não era assim tão mau e seria muito mais difícil ser descoberta. Como tinha pais ausentes, nunca se saberia. Mas não era assim tão simples. Continuei a comer misérias ou a saltar todas as refeições que conseguisse (tomando proporções em que a minha mãe foi dar comigo quase desmaiada na banheira a tremer com frio), só que era então que tinha um impulso gigante e comia tudo e mais alguma coisa até não conseguir mais, e depois como me sentia culpada, eu vomitava tudo. Emagreci uns quilogramas, até que os meus amigos começaram a notar e felizmente consegui sair da situação. No entanto, tive várias recaídas (uma este ano inclusive) e ela voltava. Acho que quando temos um problema destes, ele nunca desaparece. Fica à espera de um momento oportuno para dar o strike e fazer-nos cair nos velhos hábitos de novo.

Enfim, o facto de ser a amiga gorda não ajudava. Todas as visitas à loja das magras (como eu lhe chamo) eram um verdadeiro pesadelo e uma facada na minha auto-estima (que já era bem escassa). E claro, chegou a um ponto em que todas tinha namorado no grupo, todas menos eu. Foi muito complicado porque todos os rapazes gostavam delas, mas nenhum gostava de mim, nem se interessava. Até que no 9º ano eu tive finalmente, após tantos anos a ver as minhas amigas a trocar de namorados, o meu primeiro namorado.

E agora vocês pensam que isto melhorou a minha autoestima? Não. Nem um bocadinho. E porquê? Porque eu vivia sobre a pressão de ter que conseguir ser "tão boa" quanto as outras. Comecei a ser mais artificial, a maquilhar-me e arranjar-me muito mais, para que todos se esquecessem das minhas falhas. Só que ele trocou-me por outra mais magra e mais bonita que eu (e isso minha gente, custou muito e mexeu com o meu psicológico de uma forma que não conseguem imaginar. Ela era uma amiga muito próxima). Era uma relação tóxica que não acabei até perceber que estava a chegar a um limite, ele andava com outras nas minhas costas, comentava e olhava para outras, e estava comigo para dizer que tinha namorada. Não chorei quando acabou, porém a minha ingrata "amiga" fez-me mais uma visita desagradável e tudo piorou.

Durante esse espaço de tempo, acabei por me refugiar no cuidado a mim mesma. Tornei-me uma pessoa mais fria com os outros e com as situações que me rodeavam, parecia extremamante confiante, tudo para chegar a casa e chorar compulsivamente no duche.

Lá dei a volta por cima mais uma vez, mas sozinha. Fico orgulhosa por ter conseguido derrotá-la sem ajuda de ninguém, e ainda com algumas recaídas, passei este tempo de forma tranquila.

Fui a uma nutricionista em abril e fui diagnosticada com obesidade. As minhas análises são um pouco preocupantes porque infelizmente herdei colestrol e glicose alta da minha família, e agregada à má alimentação que tive em criança, a coisa estava crítica. Eu acabo sempre por dar a volta por cima, mas não deixa de ser algo a estar sempre a controlar.

Com isto tudo, posso dizer que não aceito o meu corpo. Custa-me estar nas redes sociais e por vezes estar com amigas porque não entendem e fazem comentários que me incomodam profundamente acerca de assuntos que para mim são frágeis. Da mesma forma como me incomoda que não respeitem o facto de eu usar aquilo que gosto de ver em mim.

Posso fazer com que não se note porque com estes anos todos, eu sei vestir-me para enganar os outros. Sei esconder a gordura de forma eficaz. Claro que se nota sempre, mas muito menos acentuadamente.

Estes são os complexos de uma adolescente gorda do século XXI. Agora, relembro que as adolescentes magras também têm os seus complexos, e os rapazes também são seres humanos e também os têm. Ora, com isto tudo, quero pedir que se pare com o facto de compararem e classificarem problemas, do género o meu é maior que o teu. Não temos a autoridade para o fazer, nenhum sofrimento deve ser desvalorizado. 

 

25
Jun18

SKAM e o impacto na sociedade

SKAM, "Vergonha", em potuguês. Para os mais ligados às redes sociais são capazes de já ter ouvido falar da série norueguesa que se tornou viral por todo o mundo.

Retrata a história de um grupo de jovens de secundário que vivem em Oslo e frequentam a tão famosa escola - que é mesmo real e na maior parte dos atores estudou - Hartvig Nissens, mais conhecida como Nissen.

A série possui quatro temporadas em que, apesar de seguir as ligações dos jovens estudantes, centraliza um deles em cada uma das temporadas. Há vários temas referidos ao longo da série, temas tabu e que são importantes porque nos confrontam com uma realidade que não integra somente a sociedade norueguesa, como a sociedade mundial em que vivemos. São exemplos a religião, a desigualdade de géneros, a homossexualidade, o bullying, os distúrbios alimentares, a exclusão social... entre outros que não possuem tanto destaque.

Durante a primeira temporada, temporada que foca a Eva, somos apresentados àqueles que vão ser as personagens principais da série, entre eles as amigas da Eva, - Noora, Sana, Vilde e Chris - o namorado e o melhor amigo do mesmo - Jonas e Isak, respetivamente - e os rapazes mais velhos e populares da escola - os Penetradores, sendo os jovens com mais destaque os charmosos e populares William Magnusson e Chris Schistad.

Mas como é que todos eles se conhecem? Graças àquilo em que a série gira em volta, uma tradição norueguesa chamada Russ Bus. Basicamente, este consiste em comprar um veículo (autocarro, carro ou caravana), decorá-lo ao seu gosto. No último ano, os participantes fazem um desfile e festas no seu veículo, sendo premiados em diferentes categorias. A época do Russ abre a 20 de abril e acaba a 17 de maio, o dia da Constituição Norueguesa. Durante este período de tempo, os jovens devem vestir um macacão de uma cor só (vermelha, azul e preta, habitualmente) e organizarem as suas festas no seu bus, "enfrascando-se" em álcool, e tendo que ir às aulas.

O problema constante da série gira em torno do Russ Bus, sendo este a causa do relacionamento de muitos personagens, bem como das discussões entre eles e da organização das festas, onde alguns desentendimentos têm tendência em florescer.

O que pensei sobre a série? Achei pertinente. Identifiquei-me com algumas das situações retratadas e com os pontos de vista dos adolescentes em análise. É interessante ver o seu percurso, pois se muitos crescem, outros regridem (pelo menos na minha opinião).

No geral, recomendo a que vejam porque faz-nos ver o mundo de outra forma, e até porque as mensagens que passam aplicam-se sempre. After all "Everyone you meet is a fighting battle you know nothing about. Be kind. Always."

 

03
Abr18

O mundo perante os olhos de uma adolescente

O dia começa às 07:00 com a voz da minha mãe a acordar-me. Às 07:10 é hora do pequeno-almoço, uma torrada e uma chávena de chá. Lavar os dentes, vestir o casaco, pegar na mochila e estou fora de casa.

Ruas em movimento. Uma das cidades mais movimentadas em Portugal levanta-se cedo, talvez muito mais cedo que eu própria. As pessoas passam, mas ninguém diz bom-dia. Em vez disso, movem-se com pressa para chegar onde quer que tenham de chegar àquela hora, olham para o chão calmamente ou simplesmente põem os fones nos ouvidos e desligam-se do mundo.

O vento bate-me na cara. Se há dias em que sabe bem, há outros que me faz impressão. Mas eu própria não tenho muito tempo para pensar em qualquer coisa, exceto o facto de ter que correr porque dessa forma perderia o autocarro - o que não seria um grande problema porque posso apanhar praticamente qualquer um, e caso não me apeteça, peço ao meu pai que me leve de carro quando deixar a minha irmã.

No autocarro, outro sítio monótono. Apenas ouvimos aquele barulho de fundo de campainha, que vai tocando de vez em quando. Às vezes há muita gente, outras vezes nem tanto. Para mim é quase igual, a única diferença é que num dia me posso sentar e evitar qualquer incómodo ligado a apalpões indesejados de desconhecidos (porque, infelizmente, já passei pela experiência mais que uma vez em pleno autocarro), nos outros tenho que ficar de pé, agarrado onde quer que consiga para evitar quedas estúpidas e completamente fatais, já que andar de vestido e saia uma boa parte dos dias não é propriamente fácil.

Algo que entendi com andar de autocarro é que há sempre um grupo de velhotas que adora cuscuvilhar, um grupo de amigos que vai para a mesma escola, os que falam ao telemóvel com alguém (abençoada seja a pessoa que lhes atende àquela hora da manhã), e aqueles que, como eu, não tem amigos como companhia e se encontram sozinhos a olhar para as ruas que já tão bem conhecem, à espera que chegue o momento de carregarem no botãozinho e sair nas paragens.

Confesso que este é um momento que anseio cada vez que vejo o autocarro aproximar-se. Não gosto de andar por lá. Sinto que tenho demasiados olhares em cima, e definitivamente, por mais que tente, não consigo tirar os ouvidos e deixar de ouvir certas conversas, especialmente quando o tema são pessoas que eu conheço.

Assim, quando saio do autocarro e o som dos saltos é causado pelo passeio, sinto-me mais aliviada. Mas é um alívio que não dura lá muito, há sempre pessoas que me seguem pelo mesmo caminho (ainda que eu tenha sido a primeira a usá-lo e não pretendo deixá-lo para ir pelo caminho da enorme, dolorosa subida fatal, mais uma vez, por ser a rua principal), uma rua recatada que é um atalho para o local onde vou ter que passar o resto do dia. Geralmente essas pessoas são constituídas por três grupos - as contínuas, as divas cujos pais não querem saber minimamente de onde andam, logo estão a falar dos rapazes com quem já estiveram até à data, e os rapazes, não aqueles de que elas falam, mas sim aqueles que são amigos delas, mas que preferem ter uma conversa de homens.

Admito que algumas crónicas poderiam dar um livro de comédia para adolescentes de hormonas aos saltos e cujo único objetivo é estar com o máximo de pessoas possível até ao final do secundário, como se isso lhes fosse servir como um passe para a glória na Faculdade.

Mais uma vez, tento caminhar mais rápido para ir à frente e não ter que as ouvir, mas há dias em que estou demasiado cansada e acabo por optar ficar para trás, ainda que corra o risco de por acaso ouvir qualquer coisa que não seja do meu agrado.

As raparigas continuam, abanando as suas ancas propositadamente de forma a atrair os olhos da próxima "vítima", os rapazes param num beco que me dá arrepios só de passar por ele, com o único propósito de fumar, alguns tabaco, outros fumam os charros, outros bebem um bocadinho para começar o dia. É estranho pensar que uns quantos já foram meus colegas de escola, e que agora parecem estranhos.

Finalmente chego aos semáforos, corro o mais rápido possível para passar pela passadeira a tempo, e finalmente aproximo-me do meu destino final. Tiro o cartão, passo-o e digo bom-dia ao porteiro sorrindo-lhe, não porque sou falsa, mas porque sou sincera.

Continuo a caminhar até ao sítio onde terei aulas, após subir as infindáveis escadarias do sítio arcaico (que toda a gente concorda que necessita de uma renovação, já que uma parte foi renovada, mas que o restante continua com o mesmo aspeto de há 80 anos atrás).

Caminho pelo longo corredor, alguns alunos encontram-se já sentados, mas ninguém da minha turma. Sento-me perto da porta, ou simplesmente fico em pé, encostada à parede, saco o telemóvel e ligo ao meu pai. Só para dizer que cheguei bem. Fico à espera que alguém chegue, enquanto estou no Instagram a ver as novidades, até que começam a chegar. Dizemos pouco mais que bom-dia, e apenas quando os corredores se começam a encher, começamos a falar com aqueles que vão chegando, acerca de um assunto qualquer que esteja na berra, seja pelo vídeo que ficou viral no Colégio nos últimos dias, seja pelas novidades que estão na berra.

A campainha toca. Pegamos nas mochilas ainda a contragosto e vamos para a sala de aula, como se esse fosse a forca, sentamo-nos por ordem alfabética (aldrabando sempre que possível), aí instala-se a feira. Uns esqueceram-se de colocar os telemóveis em cima da mesa à entrada, o professor não começa a aula (mesmo querendo começar), o barulho toma conta da sala.

E este mesmo processo repete-se ao longo dos tempos da manhã. Quando toca para o almoço vamos a correr, mesmo sendo proibido correr nos corredores. Há regras que foram feitas para ninguém as cumprir, ainda que devêssemos.

A fila cresce, uns passam à frente, outros (e esses são poucos) são honestos, mas esses contam-se com os dedos de uma mão, não passam à frente e enfrentam a sua posição com a cabeça levantada (muitas vezes para apanhar a melhor net possível, o que é uma tarefa complicada).

Eu fico com os meus amigos, somos um grupo relativamente grande. Demasiadas raparigas para contar e quatro/cinco rapazes, que podem ou não ficar connosco. Falamos dos tempos que passámos no passado, com outros amigos que temos no coração (ainda que gostemos muito uns dos outros, aqueles serão sempre os amigos de quem gostamos mais), fazendo-nos relembrar os bons momentos.

Ao aloço reunimo-nos todos na mesma mesa, piadas átoa e fotos horríveis para o countdown do aniversário que está a meses de acontecer. Eu não como muito ao almoço, não gosto da sopa da escola, a fruta não tem lá grande cara, e não me apetece comer tomate pouco maduro, então fico só pelo prato principal, que acaba por não ser lá muito tocado.

Acaba-se o almoço e aproveitamos o resto do tempo a fazer qualquer coisa, podemos ir sair, ou então ficamos na escola num sítio qualquer. Por vezes no campo, por vezes num dos vários bancos, outras na esplanada ou no interior do bar mesmo.

A campainha toca. Malditas aulas de novo. Todo o processo anterior se repete mais uma vez, e após ameaças de sairmos mais tarde do que é suposto, acabamos por sair à hora estipulada.

Eu saio com as minhas amigas. Se o meu pai me vier buscar, dá boleia a uma amiga minha que vive relativamente perto de nossa casa. Se ele não vier, eu fico à porta a falar com uma parte do grupo, fazemos um círculo e falamos de coisas random. Estar com os meus amigos faz-me rir e deixar os pensamentos que assombram muitas vezes nas aulas, inclusive quando adormeço devido ao cansaço. Mais tarde ou mais cedo, acabamos por nos despedir e eu apanho o autocarro, passando por um drama completamente diferente do da manhã.

Cada vez que apanho o autocarro à tarde, deixo passar o primeiro, e por vezes o segundo, de forma a estar em paz. Consigo sempre um lugar onde não vou ter que passar pelas frustrações mundanas de andar de autocarro, é uma viagem de paz e relaxamento acompanhada dos meus pensamentos, que apesar de maioritariamente serem tranquilos, por vezes transformam-se nos esqueletos que escondo no armário (que vão ganhando mais e mais companhia à medida que os dias passam) e isso dá-me vontade de correr para casa e tomar um banho a pensar em tudo isso, e por vezes fazer uma mistura de água salgada e água potável que passa pelo meu corpo.

Com este post, altamente deprimente, posso garantir que não é a rotina de todos os dias, mas de dias como o de hoje. Simplesmente, foi um dos piores dias do ano, mas longe de ser tão mau como outros que já passaram.

Fico triste. Triste porque as pessoas já não querem saber. Cada vez mais nos tornamos mais frios em relação às situações atuais, tantos são os casos que vemos hoje em dia na televisão. O conflito em Espanha, o terrorismo islâmico, o racismo no EUA, a possível guerra iminente entre os EUA e a Coreia do Norte. Existem outros exemplos, mas ninguém quer saber o suficiente.

Fico triste. Triste porque as pessoas são falsas. Sorriem-nos para nos espetarem facas e nos atirarem pedras nas costas. E eu sinto, e eu sei. Sei que todos os dias em que vou para a escola me fazem isso.

Fico triste. Triste porque as pessoas são hipócritas, e o pior, é que eu sou também. Sou hipócrita por criticar o facto de os outros não quererem saber e serem falsos, quando eu também sou assim. Está tão entranhado no ser humano da sociedade de hoje. Eles dizem mal de nós, e nós sabemos, mas fazemos o mesmo. Criticamos que o outro olha para o lado, mas a realidade é que a política de jogar em dois lados é a melhor possível, ou então sair neutro é ainda melhor para todos.

Fico triste. Triste porque não nos respeitamos. Enxuvalhar os outros parece que se tornou em algum tipo de divertimento qualquer, tipo o programa de família de Domingo.

O mundo está cada vez mais a afastar-se. Cada vez mais nos tornamos hipócritas, falsos, céticos, e tantas outras coisas. O mundo está a apodrecer e todos somos responsáveis.

A perspetiva do mundo nos olhos de um adolescente de 15 anos. Um dia na sua pele.

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