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Chávena de Chá das Cinco

É chávena de chá só que agora bebe-se café

Chávena de Chá das Cinco

É chávena de chá só que agora bebe-se café

O pior já passou

Carlota, 29.09.18

Apesar de nada ter dito durante esta semana (tenho estado afogada em trabalhos e estudos), aproveito para passar por aqui para vos dar boas novas a respeito da minha recuperação.

É com grande felicidade que anuncio que o pior já passou e que já tirei os pontos, quer dizer, aqueles que podem ser tirados (os restantes são absorvíveis). No entanto, tenho-me sentido muito mal. Foram-me praticamente arrancados e eu tenho passado os últimos dias miseravelmente. Mal me concentro porque tenho dores ou me sinto estranha, agora pensem isso e ter imenso que fazer com pouco tempo, sendo que no máximo durmo 5 horas por noite e já a correr bem.

Está a ser muito difícil e espero que passe rapidamente! Isso e o tratamento, visto que tenho que por cremes nos pontos que ficaram e nas marcas daqueles que fora tirados, massajar o sítio e por creme hidrante (dói tanto que quero chorar cada vez que o faço).

É tudo um processo, agora é chutar para a frente. 

Finalmente vou começar o 11º ano

Carlota, 19.09.18

Como já estão cansados de saber, tenho estado a faltar há duas semanas, o que me tem feito perder alguma parte da pouca, mas ainda importante, matéria. Tudo isso, associado ao facto de me encontrar fechada em casa, contribuiu para o facto de me começar a cansar e de estar desmotivada para basicamente tudo.

Felizmente, hoje fui a uma consulta com a médica cirurgiã, que me disse que até já poderia ter ido para a escola e que todo o cuidado foi um pouco excessivo. Com isto, significa que amanhã já estarei capaz de poder comparecer, o que me deixou imensamente animada.

Maior parte das pessoas, caso se encontrassem na minha posição, quereria faltar o máximo de tempo possível. Não é que eu também não goste de descansar, mas quero sentir-me ativa e produtiva, antes que tudo.

Assim, hoje vou aproveitar o dia para estudar um pouco mais e para tratar de alguns assuntos relacionados com o tema.

Obrigada por me estarem a ocupar neste processo da minha recuperação, que está cada vez mais próxima do seu fim.

Isto do pós-operatório tem mais que se diga...

Carlota, 15.09.18

Dependo de toda a gente para fazer quase tudo, o que é algo que me intriga bastante!

Desde criança que sempre fui muito independente (isto após perder o medo de escadas, até lá dependia das pessoas para me ajudar) e não gosto que me façam tudo, nomeadamente as coisas mais básicas, como fazer a minha cama e preparar-me.

Com esta questão da operação, tenho visto a minha independência escapar-me pelos dedos radicalmente. Literalmente, eu preciso de ajuda para fazer quase tudo.

Dependo da minha mãe para tomar banho (e é à gato), dependo da minha mãe para me vestir e despir, para me calçar, para me pentear, para me lavar o cabelo (e é para dentro do lavatório que já vou com sorte), para me por creme no corpo, para literalmente tudinho.

Hoje, tive que arranjar o cabelo. A minha mãe, como é óbvio, não sabe as minhas rotinas e como eu funciono, não sabe os produtos que aplico no cabelo e quando o faço, não sabe os passos para o tratamento do cabelo, não sabe como o arranjo para que fique brilhante e sublime. Por outro lado, cabelos não é o grande forte dela (falemos de unhas com ela, porque eu sou um autêntico desastre), o que torna tudo mais difícil. Primeiro porque não tem o mesmo gosto ou paciência que eu, e depois porque tem imensa falta de prática e jeito. Eu tento sempre dar o meu jeitinho e explicar tudo, mas há coisas que é mesmo impossível eu fazer (como tratar to styling, visto que levantar os braços é tão proibido como a versão fiel das 50 Sombras de Grey na Arábia Saúdita. É melhor nem falar nisso...). É aí que a porca torce o rabo.

Por agora isto é o melhor que tenho e posso ter sequer. Não há muito a fazer. Tenho que me contentar com isto, mas confesso que me custa um pouco ver-me incapacitada.

Mas se fosse só a dependência de pessoas... dependo também de Ibobrufenos e de soutiens (ou devo dizer prisões de mamas de alta segurança, do género prisões do Suicide Squad), mas pior que tudo isto, dependo da mesma posição para dormir. Tive que abdicar do facto de dormir sempre de lado (como já é mais que óbvio) e tive que começar a dormir de barriga para cima e não me mexer muito.

Mal posso esperar por tirar os pontos, posso não conseguir fazer muito, mas sempre posso fazer qualquer coisita. Mas mais importante que isso, quero ficar a 100% e poder voltar a dormir sem soutien (como é que há mulheres que o fazem? Eu estou no maior sofrimento!). Isso e tirar os pensos. 

Enfim, tenho um montão de desejos e reclamações, quase sempre fiéis porque simplesmente não podem ir embora. Se estão num pós-operatório, estamos juntos. Se não estão, fiquem felizes por isso e vão a Fátima agradecer à Nossa Senhora (porque isto de ser tuga é assim, não há dinheiro cá para Vaticanos. Vá, isto é brincadeira mas se forem religiosos e assim considerarem, força minha gente!). Se vão estar em breve, muita força e tentem ser positivos - cada pós-operatório é um caso e cada pessoa é uma pessoa. Isto não é uma ciência exata.

May we meet again

Carlota, 10.09.18

Há uns tempos que tenho tentado dar-vos uma boa ideia daquilo que se está a passar na minha vida (não querendo dizer demasiado sobre o assunto), aqueles que me seguem há mais tempo já devem ter uma ideia do que é que se trata. Se me segues há pouco tempo, passo a introduzir-te a toda a situação.

Ano passado, com apenas 14 anos (ainda não tinha os 15 feitos), fui diagnosticada com crescimento anormal da mama, a minha pediatra mandou-me para a consulta da cirurgia para que a médica pudesse avaliar o meu caso e ver aquilo que se podia fazer.

Em Agosto de ano passado fui chamada e a médica, que por acaso é diretora de serviço daquele Hospital, disse-me que efetivamente eu tinha tido um problema no desenvolvimento e que eu tinha os músculos completamente partidos, o que faziam a mama descair, causando incómodo, dores e maior probabilidade de cancro da mama (juntando ao facto de na minha família existirem bastantes casos, eu não estou nada livre de perigo). Estou desde aí à espera da operação.

Cheguei a ser chamada e colocada à frente na lista de espera porque era menor e não queria faltar às aulas (não adiantou de nada), e por volta de Abril devia ter sido operada, se o cheque não tivesse sido emitido. 

Cheque? Sim, cheque. Após nove meses de nos encontrarmos no serviço público, o Estado emite um cheque que nos possibilita ir a um Hospital Privado e sermos operados em menos de nada. Eu aceitei e fui, ainda na esperança de ser operada no terceiro período do 10º ano. Até que o médico se recusou a operar-me e me mandou de volta para o Hospital de Origem, no qual continuei até ao dia da operação.

A este ponto já toda a gente percebeu o contexto do post anterior e deste. Já sabem onde estou e o que vim fazer.

No momento em que estiverem a ler isto ou estou à espera, ou estou na mesa de operações, ou estou no recobro. O dia da operação chegou e ontem dei entrada no Hospital.

Estou a escrever com antecedência, mas por esta altura, se não estou em lágrimas, estou a contê-las ou estou a adormecida. 

Chegou o dia. 

Aproveito para dizer que se esta semana algum post sair será um da minha rubrica diária, mas em princípio nada será postado até eu voltar a casa. Em princípio estou internada durante uma semana, mas tudo dependerá do meu pós-operatório.

Obrigada por me terem acompanhado durante este caminho, aprecio imenso o apoio que me deram sempre que falei nisto. E agradeço especialmente à Sofia. Amiga, estou-te super agradecida por tudo, por me teres ouvido e por me teres ajudado sempre durante todo este caminho. Amiga, adoro-te.

Para todos vocês que estão a ler este post e que certamente estão a desejar que tudo corra bem porque são boas pessoas, só há algo a dizer:

 

 

Cirurgia plástica aos 15 anos

Carlota, 30.03.18

Olá!

Após algum tempo afastada, decidi partilhar convosco um lado da minha vida muito mais pessoal que qualquer outro. 

Ao longo dos últimos meses, vocês têm vindo a conhecer os meus pontos de vista, as minhas peripécias e os meus gostos pessoais, mas há coisas que uma pessoa simplesmente tende a guardar para si própria, e este assunto é um deles.

Não vos vou contar porque vocês querem mesmo saber, até porque nunca me viram na vida e quem me vê no dia a dia só sabe o quanto necessito desta cirurgia quando eu própria dou abertura para falar do assunto.

Agora podem perguntar-se: então porque é que nos vais contar agora se é um assunto que já deu para entender que detestas falar? É simples, quero partilhar com vocês a minha ansiedade e o susto que tive há uns dias, mais precisamente ontem, dia 29 de março de 2018.

Entrei na puberdade muito mais cedo que outras raparigas, o que fazia de mim um alvo fácil de bullying, mas isso não vem ao caso no momento. O que sim, importa para a história, é que eu vi o meu corpo crescer e desenvolver-se demasiado cedo e de forma extremamente rápida. 

Não sei bem quando realmente começou, ou quando se veio a reparar em algo alertante, que era a incapacidade de comprar soutiens adequados que me fossem servir a longo prazo.

O certo foi que, por volta dos meus 14 anos (por esta altura, no passado ano de 2017), o meu pai insistiu comigo e com a minha mãe para falarmos com a médica que me acompanhava, e após meses de uma larga discussão acerca do facto de eu ter ou não um problema, fomos consultar quem realmente tinha conhecimentos válidos para avaliar a situação.

Lembro-me perfeitamente do dia em que tive que a minha médica viu o que aconteceu e rapidamente constatou algo que o meu pai já havia concluído há que tempos - efetivamente eu tinha uma deficiência nas mamas.

Não chorei. Pelo menos, não me recordo de ter chorado por causa disso. Na altura, eu era da opinião que não tinha problema nenhum e que eu simplesmente tinha um formato diferente e tamanhos que podiam distar muito um do outro, mas que não fazia diferença pois todas as mulheres têm uma mama maior que a outra.

Entretanto fui encaminhada para cirurgia plástica, esperei durante alguns meses e em Agosto fui finalmente à consulta. Falei com a cirurgiã, ela disse que me ia operar numas férias futuras que teria durante o ano e tudo ficaria bem. Explicou o que ia fazer com termos muito técnicos, mostrando onde ia tirar e voltar a por e enfim... resumindo, ia fazer-me uma reconstrução mamária.

Os meses foram passando e nada de me chamarem, foi então que dei por mim a pensar que iria demorar muito a ser operada pois a lista de espera devia ser infindável e cada vez mais existiam pessoas a entrar, sendo elas muito mais prioritárias que eu.

O problema foi ontem. Nunca tive tanto medo, quer dizer, medo não é a palavra correta. Talvez receio, e mesmo assim não consigo descrever realmente aquilo que senti.

Estava a dormir sossegada e a minha mãe foi acordar-me para me comunicar que me tinham chamado para ser operada já nesta segunda-feira de Pascuela. Teria que ir para lá domingo de Páscoa. Deslocar-me-ia ao sítio indicado pelo Hospital para comprar um soutien apropriado para o pós-operatório e a minha mãe ficaria comigo. Instantaneamente enchi-me de nervos, de ansiedade e tentei afastar tudo, mas a diferença foi que isso era mais que impossível. Tinha sido demasiado repentino. Do nada. Eu não me encontrava pronta para enfrentar o bloco operatório e tudo o que viria a partir daí.

Estava eu a mentalizar-me de tudo o que iria suportar nos dias seguintes quando o Hospital voltou a ligar à minha mãe a dizer que a operação afinal não poderia decorrer, pois o Estado tinha emitido um cheque para eu usar no privado, visto que os nove meses de prazo que o Público tinha para me operar tinham expirado.

Chorei. Chorei porque tive que passar pela aflição de ir à faca nos dias seguintes. De ter que confrontar-me com os resultados e as reações de todos os que me rodeiam. De poder enfrentar os mesmos problemas que me indicaram que poderia desenvolver se não fizesse a operação, ainda fazendo-a. Mas acima de tudo, mentalizar-me com a maior rapidez possível que era o momento de fazer aquilo e deixar os meus medos de lado - ainda que eles me governassem por completo. Chorei porque tinha passado por aquela angústia toda para nada. Para me dizerem que ia ter que repetir todos os exames que passei meses a fazer. Para me dizerem que afinal já não seria a minha vez. Para me tirarem aquilo que tinham dado. Senti-me a criança a quem lhe dão um presente para o tirarem depois.

O certo é que após horas de choro, entendi uma coisa. Nunca mais vou passar por isto. Nunca mais vou passar pela angústia de me dizerem que chegou o momento, eu ter que me preparar num espaço de tempo curtíssimo e me dizerem que afinal tudo continuará igual por mais tempo ainda.

Neste momento, para além de estar a escrever este post, estou a investigar o melhor sítio para ser operada. Estando dividida entre uma Clínica no Porto e um Hospital Privado qualquer. Os meus pais vão falar com uns amigos de forma a que eles dêem uma palavrinha a quem eles querem que me opere, o mais eficazmente possível, o mais rápido possível.

Eu tenho 15 anos, sofro de uma deficiência mamária que me pode causar diversos problemas no futuro. Quero ser operada, não pela estética, mas pelos tais problemas. Em breve vou enfrentar o bloco operatório e uma reconstrução mamária. Esta é a minha história.