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Chávena de Chá das Cinco

É chávena de chá só que agora bebe-se café

Chávena de Chá das Cinco

É chávena de chá só que agora bebe-se café

Não sou feminista.

Carlota, 25.08.18

Não sou. Acabou. E agora podem querer argumentar comigo o quanto este conceito é importante hoje em dia e que eu, enquanto mulher, tinha mais era obrigação que o ser. Mas eu não sou e não adianta virem-me com tretas. 

Não acredito no feminismo. No entanto, também não acredito no machismo. Repugnam-me. Repugnam-me porque são baseados em hipocrisia. Eu sou hipócrita, até pode ser que sim, mas não suporto a luta.

Quer dizer, expliquei-me mal. Aprecio a luta, o que não aprecio é a forma como a luta é feita. Eu sou mulher, por isso o argumento "Tu és homem, para ti é fácil" já não vai funcionar aqui.

Eu acredito na igualdade de géneros e de oportunidades. Aceito que certos homens sejam melhor remunerados dado as funções que desempenham. Não aceito que mulheres tenham um ordenado base mais baixo quando desempenham essas mesmas funções. Isso aí não.

Detesto o facto de os patrões não contratarem uma mulher com competências ais desenvolvidas que um homem que concorreu ao mesmo posto e lhe dão a colocação a ele. Expliquem-me lá porquê. Porque é casada, tem filhos e se eles ficarem doentes ela falta? Se calhar ela falta porque ganha menos que o marido, mas é só um palpite...

Não gosto dos comentário machistas que tantas vezes ouvi. "Vai para a cozinha que é lá o teu lugar" "Tens lá jeito ou vocação para teres uma carreira, mal tiveres filhos vai tudo à vida" "Vai para um curso que se adapte a ti" "Quando tiveres um marido e filhos tens que saber cozinhar e servir-lhes o que desejam, e se tiveres meninas elas vão ajudar-te" "Não gostas de peixe mas quando te casares e o teu marido quiser tens que fazer" "Não se estraga um casamento promissor e de anos por um deslize. Deslizes todos temos". Não gosto. Repugna-me. E o pior é como muito são feitos por mulheres "conservadoras". Conservadores não são machistas. Já só faltava dizer "Quando te casares e não quiseres ter relações com o teu marido tens que o fazer porque ele quer" ou "Quando te casares e não quiseres ter relações com o teu marido, não te podes queixar quando ele for buscar o que não tem casa lá fora".

Mas também não gosto da forma como as mulheres que se designam como "feministas" se tratam entre elas. Todo o criticismo sobre a roupa que usam, toda a felicidade que têm em pisar a outra. "Que puta, olha como ela vai vestida". Não são vocês que são #freetheniple? Pois, mas se ela não usar soutien cai-lhe tudo em cima. E agora expliquem-me como é que uma feminista é capaz de slut shame outras mulheres? Pior ainda, amigas!

Então vocês agora dizem "Mas isso faz de ti feminista". Não. Não faz de mim feminista porque eu não me considero feminista. Primeiro é um nome ridículo. Feminista parece mais o contrário de machista que outra coisa. Não gosto da palavra. Logo, não vou usá-la para me descrever.

Depois, eu não suporto o extremismo. Apoio as campanhas, apoio os ideais, só que o maior problema é como muitas são extremistas. Ninguém pode dar uma opinião ou fazer um comentário que vá contra os vossos ideais, já somos machistas todos. Isto não é assim. Não é porque eu acho a forma como lutam ridícula que não posso apreciar a vossa luta, até porque eu partilho-a.

Geralmente, maior parte das pessoas não são tão extremistas assim. Mas minha gente, só rezo que não esteja aqui uma ativista. Ativistas são os piores. Defrontei-me com uma e quase me comeu viva porque disse que achava ridículo aquela coisa de que 40% do governo tem que ser composto por mulheres. Ah, nem me façam falar nisso! Sou a favor de mulheres na política, mas é o mesmo. Imaginem que são patrões. Vão mesmo colocar uma pessoa que não tem o nível de exigência e de competência para desempenhar o cargo? Claro que não! Depois acontece aquilo da Ministra da Administração Interna. Não digo que não tivesse feito um bom trabalho noutras situações, mas ela não soube lidar com as situações, não soube liderar. Isto não quer dizer que outra mulher não pudesse ter ocupado o cargo e ter feito um excelente trabalho.

E antes que me venham dizer que é repugnante eu fazer a política parecer só de homens ao criticar isto, digo-vos mais. Durante a monarquia nenhuma mulher tinha competências para governar, até que elas tiveram. É mesmo preciso falar de tantos bons exemplos? A Rainha Isabel I de Castela, a Emperatriz Isabel de Avis, a Rainha Isabel I de Inglaterra, a Rainha Catarina de Aragão como Consorte do Henrique VIII, a Rainha Vitória... até mesmo a Rainha Isabel II do Reino Unido! Tantas mulheres excelente que governaram ou em próprio nome ou como regentes na ausência dos esposos ou em nome dos filhos! Num tempo em que a mulher era uma incapaz de primeira. Agora, que o conhecimento ainda é maior, obviamente têm todas as capacidades para desempenhar altos cargos, mas não podemos obrigar o governo a ter 40% de mulheres no seu corpo. Quer dizer, e se não houverem tantas mulheres com capacidade para isso? Podem atingi-la mais tarde, mas lá está, na altura podem não estar preparadas para os assumir.

Eu própria gostava de tirar Ciências Políticas, é o meu sonho. Claro que gostava de chegar ao governo, mas se eu não for qualificada para o cargo, não posso esperar que coloquem o bem do país para eu ficar com o lugar. Os políticos representam o país e querem o melhor para ele, se houverem homens que só ficaram com o lugar por contactos, isto sem terem competências, também acho muito mal. Quem sai prejudicado é o Zé Trabalhador, mais ninguém!

Enfim, já me alonguei demasiado. Sou uma lutadora, mas sei que há muito a fazer e que as mentalidades ainda têm que crescer. Não podemos ser passivos, mas também não podemos ser extremistas porque o extremismo não nos leva a lado nenhum, apenas a que outros não tenham o mínimo respeito por nós.

Por isso, não quero mais direitos para os homens e não quero mais direitos para as mulheres. Quero que tenham direitos iguais. Igualdade de oportunidades, nomeadamente. Há muito a fazer e acho que os dois lados têm que crescer, assim como aqueles, que como eu não são nenhum dos dois, precisam de ter uma voz mais ativa.

Enfim, isto foi muito à toa mas falei sobre isto com o meu pai no carro no outro dia e decidi partilhar o meu ponto de vista com vocês. Pensam de forma igual ou diferente? Gostava de saber. Mas vamos todos respeitar todos os pontos de vista e ser amáveis se o quisermos fazer. Respeito acima de tudo.

Os complexos de uma adolescente do século XXI

Carlota, 10.07.18

Trago hoje ( e a horas indecentes) um post muito mais emocional e pessoal que aquilo que gostaria. Raramente me abro acerca do meu corpo ou da minha aparência física. Já me ouviram falar dezenas de vezes sobre a escola e têm noção (isto porque eu decido mencionar) que tenho algumas problemáticas muito pessoais. Hoje, inspirada por um vídeo da Rita Serrano, uma youtuber portuguesa que admiro imenso, apesar de não a acompanhar "religiosamente", decidi partilhar convosco os meus complexos.

É de conhecimento geral que toda esta onda das redes sociais e do crescimendo do ramo da moda e da ascenção dos grandes estereótipos de beleza (que apesar de existirem há muitos anos, têm conquistado uma grande supremacia no nosso dia a dia), tem causado aos jovens doenças do foro piscológico que podem ir de doenças comuns para este século (não desvalorizando as suas consequências), como a ansiedade e a depressão, até a doenças que ainda com origens psicológicas se manifestam fisicamente, como os distúrbios alimentares (e isto inclui anoréxias nervosas, bulímias nervosas, obesidades e muitos outros. Sim, antes que alguém estranhe, a obesidade é um distúrbio alimentar que aumenta em massa a cada dia).

Para quem me segue há pouco tempo, provavelmente não tem noção de como sou fisicamente. Vou passar a uma breve descrição não muito detalhada, pois isso virá com os meus complexos. Sou uma rapariga relativamente baixa, dependendo da ideia de cada um, de cabelos ruivos médios, olhos castanhos, algumas sardas, mas possuo uma estrutura óssea bastante larga só por mim mesma.

Assim, para se enquadrarem ligeiramente e criarem uma ideia de quem sou, posso começar por então expandir o assunto e começar a falar dos dois aspetos que mais me "tiram o sono" - dentes e corpo (figura).

Começando por aquilo que não me vai fazer alongar muito, que são os dentes. É muito simples, tenho os dentes meios amarelos por motivos que estão explicados aqui em baixo, e perante a falta de capacidade que tenho em fazer um branqueamento (porque isto o dinheiro não estica e há coisas bem, bem mais importantes que ter dentes brancos), assim ficarão até ao dia em que poder fazer algo para o mudar. Juntando mais lenha à fogueira, tenho uma ligeira (quase impercetível) sobreposição de um dente sobre outro, ainda assim como não se nota praticamente nada, eu nem uso aparelho (nem faria sentido, tenho todos os dentes perfeitinhos, não valia a pena gastar dinheiro por uma coisinha de nada). Mas isto não é algo que me faça sentir terrível, claro que me entristece porque todas as minhas amigas têm dentes branquinhos e eu não tenho, no entanto não impacta assim tanto a minha confiança. O que sim impacta é que eu tenho uma mancha bastante notável no meu dente da frente, e quando digo notável, é caso para abrir a boca e se notar de imediato. Isso custa-me bastante porque é uma caraterística minha e não há mesmo cura possível, nasceu e vai morrer comigo. E essa sensação de impotência e de ter que ouvir comentários como "Se lavasses os dentes talvez ficassem mais brancos e tirasses essa mancha horrorosa" não é lá muito agradável.

Indo agora para a parte que mais me perturba que é o meu peso e o corpo que tenho. Há uns tempos, expus a situação e tentei lidar com ela utilizando uma rubrica que acabou por morrer, eu simplesmente decidi que era algo demasiado pessoal para partilhar, posso sempre partilhar uma coisa ou outra, mas não tudo. 

Continuando, eu tenho 16 anos como se sabe, e durante estes meus 16 anos de vida se há coisa que eu nunca fui é magra. Não me lembro de ter sido magra e não há fotos minhas em que estou magra. E muito sinceramente, nunca vou poder ser uma rapariga magrinha porque nem os meus ossos permitem. Faz parte de mim e não posso mudar o meu metabolismo que só consegue fazer-me engordar ou os meus ossos que teimaram em ser largos. O que posso tentar controlar é o meu peso, o que é bastante difícil porque parece que só de respirar fico mais inchada que um balão. E eu sei que parece que lido muito bem com isto, mas não lido nada, mas é que mesmo nada bem.

Desde criança que tinha problemas com o meu peso. Ficava muito envergonhada quando tinha que me pesar em frente dos meus colegas (raio da escola também tinha que fazer testes destes), ou usar o meu peso como dado para alguns problemas de matemática (raio da professora sem imaginação nenhuma). Brincar no recreio era complicado porque as meninas não gostavam de mim porque eu não era tão magrinha quanto elas, e os rapazes simplesmente gostavam de me comparar às outras e fazer piadinhas. Com o tempo habituei-me mas ainda custa ouvir algumas coisas.

Entretanto, chegou a maldita da adolescência. O primeiro contacto com as redes sociais e com os estereótipos que me eram impostos. Porque em criança, ser gordinha até é fofinho, mas não em adolescente ou adulta. Comecei a ganhar uma doentia obceção com o meu corpo e a reparar que efetivamente, eu era gorda (isto porque até lá eu achava que era igual às outras e não tinha a perceção de ser assim tão diferente). Só pensava nas calorias que ia ingerir, qualquer saída com as minhas amigas elas comiam as gordices todas como gelados e porcarias de todos os tipos, eu bebia água (de sabores se estivesse num bom dia). Olhava muito ao espelho e era maníaca não tanto com o peso, mas com a minha aparência, o que as pessoas viam. O problema era o facto de eu me ver de forma diferente. Assim, tive um início de anoréxia, que acabou por não durar muito tempo. É aqui que chegamos aos dentes amarelos.

Por volta dos meus 14 anos ou algo assim, descobri que se vomitasse poderia comer mas ainda assim emagrecer, o que não era assim tão mau e seria muito mais difícil ser descoberta. Como tinha pais ausentes, nunca se saberia. Mas não era assim tão simples. Continuei a comer misérias ou a saltar todas as refeições que conseguisse (tomando proporções em que a minha mãe foi dar comigo quase desmaiada na banheira a tremer com frio), só que era então que tinha um impulso gigante e comia tudo e mais alguma coisa até não conseguir mais, e depois como me sentia culpada, eu vomitava tudo. Emagreci uns quilogramas, até que os meus amigos começaram a notar e felizmente consegui sair da situação. No entanto, tive várias recaídas (uma este ano inclusive) e ela voltava. Acho que quando temos um problema destes, ele nunca desaparece. Fica à espera de um momento oportuno para dar o strike e fazer-nos cair nos velhos hábitos de novo.

Enfim, o facto de ser a amiga gorda não ajudava. Todas as visitas à loja das magras (como eu lhe chamo) eram um verdadeiro pesadelo e uma facada na minha auto-estima (que já era bem escassa). E claro, chegou a um ponto em que todas tinha namorado no grupo, todas menos eu. Foi muito complicado porque todos os rapazes gostavam delas, mas nenhum gostava de mim, nem se interessava. Até que no 9º ano eu tive finalmente, após tantos anos a ver as minhas amigas a trocar de namorados, o meu primeiro namorado.

E agora vocês pensam que isto melhorou a minha autoestima? Não. Nem um bocadinho. E porquê? Porque eu vivia sobre a pressão de ter que conseguir ser "tão boa" quanto as outras. Comecei a ser mais artificial, a maquilhar-me e arranjar-me muito mais, para que todos se esquecessem das minhas falhas. Só que ele trocou-me por outra mais magra e mais bonita que eu (e isso minha gente, custou muito e mexeu com o meu psicológico de uma forma que não conseguem imaginar. Ela era uma amiga muito próxima). Era uma relação tóxica que não acabei até perceber que estava a chegar a um limite, ele andava com outras nas minhas costas, comentava e olhava para outras, e estava comigo para dizer que tinha namorada. Não chorei quando acabou, porém a minha ingrata "amiga" fez-me mais uma visita desagradável e tudo piorou.

Durante esse espaço de tempo, acabei por me refugiar no cuidado a mim mesma. Tornei-me uma pessoa mais fria com os outros e com as situações que me rodeavam, parecia extremamante confiante, tudo para chegar a casa e chorar compulsivamente no duche.

Lá dei a volta por cima mais uma vez, mas sozinha. Fico orgulhosa por ter conseguido derrotá-la sem ajuda de ninguém, e ainda com algumas recaídas, passei este tempo de forma tranquila.

Fui a uma nutricionista em abril e fui diagnosticada com obesidade. As minhas análises são um pouco preocupantes porque infelizmente herdei colestrol e glicose alta da minha família, e agregada à má alimentação que tive em criança, a coisa estava crítica. Eu acabo sempre por dar a volta por cima, mas não deixa de ser algo a estar sempre a controlar.

Com isto tudo, posso dizer que não aceito o meu corpo. Custa-me estar nas redes sociais e por vezes estar com amigas porque não entendem e fazem comentários que me incomodam profundamente acerca de assuntos que para mim são frágeis. Da mesma forma como me incomoda que não respeitem o facto de eu usar aquilo que gosto de ver em mim.

Posso fazer com que não se note porque com estes anos todos, eu sei vestir-me para enganar os outros. Sei esconder a gordura de forma eficaz. Claro que se nota sempre, mas muito menos acentuadamente.

Estes são os complexos de uma adolescente gorda do século XXI. Agora, relembro que as adolescentes magras também têm os seus complexos, e os rapazes também são seres humanos e também os têm. Ora, com isto tudo, quero pedir que se pare com o facto de compararem e classificarem problemas, do género o meu é maior que o teu. Não temos a autoridade para o fazer, nenhum sofrimento deve ser desvalorizado. 

 

O mundo perante os olhos de uma adolescente

Carlota, 03.04.18

O dia começa às 07:00 com a voz da minha mãe a acordar-me. Às 07:10 é hora do pequeno-almoço, uma torrada e uma chávena de chá. Lavar os dentes, vestir o casaco, pegar na mochila e estou fora de casa.

Ruas em movimento. Uma das cidades mais movimentadas em Portugal levanta-se cedo, talvez muito mais cedo que eu própria. As pessoas passam, mas ninguém diz bom-dia. Em vez disso, movem-se com pressa para chegar onde quer que tenham de chegar àquela hora, olham para o chão calmamente ou simplesmente põem os fones nos ouvidos e desligam-se do mundo.

O vento bate-me na cara. Se há dias em que sabe bem, há outros que me faz impressão. Mas eu própria não tenho muito tempo para pensar em qualquer coisa, exceto o facto de ter que correr porque dessa forma perderia o autocarro - o que não seria um grande problema porque posso apanhar praticamente qualquer um, e caso não me apeteça, peço ao meu pai que me leve de carro quando deixar a minha irmã.

No autocarro, outro sítio monótono. Apenas ouvimos aquele barulho de fundo de campainha, que vai tocando de vez em quando. Às vezes há muita gente, outras vezes nem tanto. Para mim é quase igual, a única diferença é que num dia me posso sentar e evitar qualquer incómodo ligado a apalpões indesejados de desconhecidos (porque, infelizmente, já passei pela experiência mais que uma vez em pleno autocarro), nos outros tenho que ficar de pé, agarrado onde quer que consiga para evitar quedas estúpidas e completamente fatais, já que andar de vestido e saia uma boa parte dos dias não é propriamente fácil.

Algo que entendi com andar de autocarro é que há sempre um grupo de velhotas que adora cuscuvilhar, um grupo de amigos que vai para a mesma escola, os que falam ao telemóvel com alguém (abençoada seja a pessoa que lhes atende àquela hora da manhã), e aqueles que, como eu, não tem amigos como companhia e se encontram sozinhos a olhar para as ruas que já tão bem conhecem, à espera que chegue o momento de carregarem no botãozinho e sair nas paragens.

Confesso que este é um momento que anseio cada vez que vejo o autocarro aproximar-se. Não gosto de andar por lá. Sinto que tenho demasiados olhares em cima, e definitivamente, por mais que tente, não consigo tirar os ouvidos e deixar de ouvir certas conversas, especialmente quando o tema são pessoas que eu conheço.

Assim, quando saio do autocarro e o som dos saltos é causado pelo passeio, sinto-me mais aliviada. Mas é um alívio que não dura lá muito, há sempre pessoas que me seguem pelo mesmo caminho (ainda que eu tenha sido a primeira a usá-lo e não pretendo deixá-lo para ir pelo caminho da enorme, dolorosa subida fatal, mais uma vez, por ser a rua principal), uma rua recatada que é um atalho para o local onde vou ter que passar o resto do dia. Geralmente essas pessoas são constituídas por três grupos - as contínuas, as divas cujos pais não querem saber minimamente de onde andam, logo estão a falar dos rapazes com quem já estiveram até à data, e os rapazes, não aqueles de que elas falam, mas sim aqueles que são amigos delas, mas que preferem ter uma conversa de homens.

Admito que algumas crónicas poderiam dar um livro de comédia para adolescentes de hormonas aos saltos e cujo único objetivo é estar com o máximo de pessoas possível até ao final do secundário, como se isso lhes fosse servir como um passe para a glória na Faculdade.

Mais uma vez, tento caminhar mais rápido para ir à frente e não ter que as ouvir, mas há dias em que estou demasiado cansada e acabo por optar ficar para trás, ainda que corra o risco de por acaso ouvir qualquer coisa que não seja do meu agrado.

As raparigas continuam, abanando as suas ancas propositadamente de forma a atrair os olhos da próxima "vítima", os rapazes param num beco que me dá arrepios só de passar por ele, com o único propósito de fumar, alguns tabaco, outros fumam os charros, outros bebem um bocadinho para começar o dia. É estranho pensar que uns quantos já foram meus colegas de escola, e que agora parecem estranhos.

Finalmente chego aos semáforos, corro o mais rápido possível para passar pela passadeira a tempo, e finalmente aproximo-me do meu destino final. Tiro o cartão, passo-o e digo bom-dia ao porteiro sorrindo-lhe, não porque sou falsa, mas porque sou sincera.

Continuo a caminhar até ao sítio onde terei aulas, após subir as infindáveis escadarias do sítio arcaico (que toda a gente concorda que necessita de uma renovação, já que uma parte foi renovada, mas que o restante continua com o mesmo aspeto de há 80 anos atrás).

Caminho pelo longo corredor, alguns alunos encontram-se já sentados, mas ninguém da minha turma. Sento-me perto da porta, ou simplesmente fico em pé, encostada à parede, saco o telemóvel e ligo ao meu pai. Só para dizer que cheguei bem. Fico à espera que alguém chegue, enquanto estou no Instagram a ver as novidades, até que começam a chegar. Dizemos pouco mais que bom-dia, e apenas quando os corredores se começam a encher, começamos a falar com aqueles que vão chegando, acerca de um assunto qualquer que esteja na berra, seja pelo vídeo que ficou viral no Colégio nos últimos dias, seja pelas novidades que estão na berra.

A campainha toca. Pegamos nas mochilas ainda a contragosto e vamos para a sala de aula, como se esse fosse a forca, sentamo-nos por ordem alfabética (aldrabando sempre que possível), aí instala-se a feira. Uns esqueceram-se de colocar os telemóveis em cima da mesa à entrada, o professor não começa a aula (mesmo querendo começar), o barulho toma conta da sala.

E este mesmo processo repete-se ao longo dos tempos da manhã. Quando toca para o almoço vamos a correr, mesmo sendo proibido correr nos corredores. Há regras que foram feitas para ninguém as cumprir, ainda que devêssemos.

A fila cresce, uns passam à frente, outros (e esses são poucos) são honestos, mas esses contam-se com os dedos de uma mão, não passam à frente e enfrentam a sua posição com a cabeça levantada (muitas vezes para apanhar a melhor net possível, o que é uma tarefa complicada).

Eu fico com os meus amigos, somos um grupo relativamente grande. Demasiadas raparigas para contar e quatro/cinco rapazes, que podem ou não ficar connosco. Falamos dos tempos que passámos no passado, com outros amigos que temos no coração (ainda que gostemos muito uns dos outros, aqueles serão sempre os amigos de quem gostamos mais), fazendo-nos relembrar os bons momentos.

Ao aloço reunimo-nos todos na mesma mesa, piadas átoa e fotos horríveis para o countdown do aniversário que está a meses de acontecer. Eu não como muito ao almoço, não gosto da sopa da escola, a fruta não tem lá grande cara, e não me apetece comer tomate pouco maduro, então fico só pelo prato principal, que acaba por não ser lá muito tocado.

Acaba-se o almoço e aproveitamos o resto do tempo a fazer qualquer coisa, podemos ir sair, ou então ficamos na escola num sítio qualquer. Por vezes no campo, por vezes num dos vários bancos, outras na esplanada ou no interior do bar mesmo.

A campainha toca. Malditas aulas de novo. Todo o processo anterior se repete mais uma vez, e após ameaças de sairmos mais tarde do que é suposto, acabamos por sair à hora estipulada.

Eu saio com as minhas amigas. Se o meu pai me vier buscar, dá boleia a uma amiga minha que vive relativamente perto de nossa casa. Se ele não vier, eu fico à porta a falar com uma parte do grupo, fazemos um círculo e falamos de coisas random. Estar com os meus amigos faz-me rir e deixar os pensamentos que assombram muitas vezes nas aulas, inclusive quando adormeço devido ao cansaço. Mais tarde ou mais cedo, acabamos por nos despedir e eu apanho o autocarro, passando por um drama completamente diferente do da manhã.

Cada vez que apanho o autocarro à tarde, deixo passar o primeiro, e por vezes o segundo, de forma a estar em paz. Consigo sempre um lugar onde não vou ter que passar pelas frustrações mundanas de andar de autocarro, é uma viagem de paz e relaxamento acompanhada dos meus pensamentos, que apesar de maioritariamente serem tranquilos, por vezes transformam-se nos esqueletos que escondo no armário (que vão ganhando mais e mais companhia à medida que os dias passam) e isso dá-me vontade de correr para casa e tomar um banho a pensar em tudo isso, e por vezes fazer uma mistura de água salgada e água potável que passa pelo meu corpo.

Com este post, altamente deprimente, posso garantir que não é a rotina de todos os dias, mas de dias como o de hoje. Simplesmente, foi um dos piores dias do ano, mas longe de ser tão mau como outros que já passaram.

Fico triste. Triste porque as pessoas já não querem saber. Cada vez mais nos tornamos mais frios em relação às situações atuais, tantos são os casos que vemos hoje em dia na televisão. O conflito em Espanha, o terrorismo islâmico, o racismo no EUA, a possível guerra iminente entre os EUA e a Coreia do Norte. Existem outros exemplos, mas ninguém quer saber o suficiente.

Fico triste. Triste porque as pessoas são falsas. Sorriem-nos para nos espetarem facas e nos atirarem pedras nas costas. E eu sinto, e eu sei. Sei que todos os dias em que vou para a escola me fazem isso.

Fico triste. Triste porque as pessoas são hipócritas, e o pior, é que eu sou também. Sou hipócrita por criticar o facto de os outros não quererem saber e serem falsos, quando eu também sou assim. Está tão entranhado no ser humano da sociedade de hoje. Eles dizem mal de nós, e nós sabemos, mas fazemos o mesmo. Criticamos que o outro olha para o lado, mas a realidade é que a política de jogar em dois lados é a melhor possível, ou então sair neutro é ainda melhor para todos.

Fico triste. Triste porque não nos respeitamos. Enxuvalhar os outros parece que se tornou em algum tipo de divertimento qualquer, tipo o programa de família de Domingo.

O mundo está cada vez mais a afastar-se. Cada vez mais nos tornamos hipócritas, falsos, céticos, e tantas outras coisas. O mundo está a apodrecer e todos somos responsáveis.

A perspetiva do mundo nos olhos de um adolescente de 15 anos. Um dia na sua pele.