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Chavena de Chá das Cinco

Uma chávena de chá, um prato com biscoitos e conversas intermináveis

Chavena de Chá das Cinco

Uma chávena de chá, um prato com biscoitos e conversas intermináveis

21
Dez18

Geração Morangos

É verdade que já era nascida nesta altura e que cresci com os Morangos com Açúcar, ainda que não tenha visto algumas das temporadas ou que não me lembre de todas elas.

Quando os Morangos com Açúcar apareceram, eu tinha um ano e, como tal, não me lembro de nada e penso que nem sequer via. No entanto, recordo-me perfeitamente de algumas temporadas, nomeadamente das últimas com a Sara Matos e com o David Carreira (temporada 7 e 8, respetivamente). No entanto, não posso dizer que sou propriamente parte da Geração Morangos porque não era adolescente na altura em que decorreram (ou nada que se parecesse).

Agora, anos depois, ando a rever, nomeadamente foi isso que fiz esta manhã toda. É completamente diferente, porque apesar de a vida deles ser muito diferente e até as circunstâncias serem completamente paralelas à minha, vejo tudo com uma perspetiva muito diferente da que via como criança.

E pronto, agora vão sair novos Morangos que eu vou ver (nem que seja para tecer a minha crítica), mas confesso não ter grandes expectativas...

Vamos ver, não é verdade? Quem mais revê de vez em quando e quem mais vai ver quandos saírem os novos?

29
Set18

#14 Carlota Isabel, mas o que vem a ser isto?

Como todos sabem (pessoal que já passou por lá) ou devem calcular (pessoal que ainda está para passar), os anos do secundário são verdadeiras novelas mexicanas carregadinhas de drama, de boatos, de mexericos, de relações fast-food e tudo aquilo que possam imaginar relacionado com estes poucos exemplos do que é a vida do Secundário.

É engraçado como na Preparatória, ou 2º e 3º ciclo (como quiserem chamar) já era assim, e que estando com um pé na Faculdade e um no Secundário pouco ou nada mudou. Devíamos ser mais responsáveis e mais maduros, mas acho que isso não foi bem aquilo que aconteceu.

Quem pergunta de onde este pensamento mirambulante saiu, já devem estar a calcular de onde. Mas pronto, vou falar e "fofocar" com vocês porque apeteceu-me e tem piada e eu nunca fofoquei com vocês e assim pronto, ficam a conhecer as fofocas relacionadas com a minha pessoa.

Para quem não sabe, o meu primo e os amigos dele foram para a mesma escola onde eu ando, o que equivale ao facto de nos vermos umas vezes. E pronto, para quem não sabe o meu primo foi o meu primeiro amigo e crescemos muito juntos, o que faz de nós muito próximos. Ora isso equivale ao facto de eu ter que ver e conviver com os amigos dele dos quais gosto. Mas gosto ponto e vírgula porque há um que... nope, não me convence. Resumidamente conheço-o desde que tínhamos uns oito anos e desde aí que nunca nos demos. Não sei ao certo como começou mas epá, é daquelas pessoas que não dá, simplesmente não dá!

A verdade é que já não via o rapaz há uns anos e pensei, com grande inocência, que ele se tinha esquecido da minha pessoa até porque pronto, não nos tínhamos visto muitas vezes depois de ele sair da escola onde eu andava. Mas não, ele ainda se lembra bastante bem de mim. Tão bem ao ponto de chamar a atenção das minhas colegas que se babam por ele.

Tudo começou quando o meu primo e eu nos encontrámos e a sua excelência lá estava. Eu, pessoa que se preze, apresentei o meu primos às minhas amigas, as minhas amigas ao meu primo, ignorando-o completamente (o que acabou por falhar redondamente visto que acabei por ter que o apresentar, bleh). Desde aí que sempre que me encontra no corredor tem um fetiche (que não é de hoje) de me provocar. Geralmente, a provocação mais usada é o "Hey, Carlota! Continuas baixinha", à qual eu respondo algo igualmente impróprio e embaraçoso, provocando o riso dos amigos dele. Outras vezes é "Hey, Carlota! Esse ruivo vai de mal a pior!" e por aí fora. Escusado será dizer que os amigos dele já me conhecem, ainda que eu mal tenha olhado para eles. E como é que sei que são amigos dele, porque chega a um ponto que se passar por eles no corredor tenho observações como "Hey, Carlota! Tens sorte que o S. não está cá!". Sou mais conhecida que o tremoço, agora.

No entanto, a teoria da conspiração não foi criada até à aula de Educação Física onde a turma dele estava a fazer condição física ao lado da minha. Nós, como alunas mais velhas, tínhamos que apreciar caloiros porque pronto, está na nossa natureza (não são só os rapazes que andam a apreciar as raparigas). Eu, como faço parte do banco dos lesionados, não faço aula e estive a observar a turma dele em vez da minha deprimente turma. 

Enfim, tudo isto para as minhas amigas começarem a dizer que ele é super giro e que não se importariam nadinha de ter nada com ele e não sei quê. Ora, eu achei esquisito. Ou melhor, eu ainda acho esquisito porque para mim ele é um miúdo, um dos amigos do meu primo, ele é um cabeça no ar e um chavalinho!

E pronto, aparentemente eu supostamente tenho um fraco por ele e todas as provocações são amor reprimido, o que é a única explicação plausível para o facto de eu ficar "chateada" com os comentários delas.

Vamos lá a ver, confesso, ou melhor, eu admito, a puberdade fez-lhe muito bem, mas isso não altera N-A-D-A! Eu, Carlota Isabel Lopes de Almeida nunca teria nada com aquele rapaz em específico, ou com um amigo do meu primo, para que conste. Para mim o S. é um mero miúdo que faz sucesso entre raparigas, que não é feio, mas que é demasiado imaturo para o meu gosto. Não engulo essa, nem nunca hei de engolir.

E pronto, aqui têm uma fofoca sobre a minha vida. Sinto que sabem pouco sobre a minha vida pessoal, mas vá já têm um bocadinho de juicy drama para terem uma impressão de mim mais teenagy. Muitos de vocês dizem que sou demasiado madura para a idade, e ainda que isso possa ser verdade, também tenho o meu lado adolescente com o drama estúpido. Pronto, hoje ficaram a conhecê-la. 

14
Set18

Ser adolescente hoje em dia num minuto

Um minuto sobre o que é ser jovem no século XXI, na década dos 10. Em grande parte (se não completamente) somos todos do novo século e todos nos deparamos com aquela questão do ser adolescente. Há séries e filmes que "retratam" o que é ser-se adolescentenos dias de hoje, mas será que é mesmo assim? Será que são 90% do filmes e artigos escritos e realizados por adultos que mostram o que é realmente ser adolescente na atualidade?

Desde que me lembro que o meu sonho era ser adolescente, mas mais que isso, eu queria desesperadamente ter 16 anos e viver a experiência que tantas vezes vi em televisão ou no grande ecrã. Todos os vídeos, as canções, os filmes, por vezes até os documentários me seduziam a querer que essa altura chegasse. Até que ela chegou. E quando ela chegou senti-me enganada.

Ser adolescente hoje em dia, não é ir à escola e chegar a casa e ver séries ou ter amigas constantemente em nossa casa. Não é ter o namorado e a família perfeita. Não é sair pelos parques todos e comer algodão doce ou gelado. Não é ir ao shopping e trazer as lojas de roupa atrás. 

Por outro lado, ser adolescente não é extorquir os pais. Não é nada como os adultos o descrevem, não é andar aí a ser um retrato das críticas que nos têm que tecer até porque se não o fizessem, não aguentariam nem mais um segundo na face da terra. 

Ser adolescente é sorrir e ter telemóvel. Para todos os efeitos ser adolescente é depender das publicações do Instagram ou do lendário feed perfeito porque como diz o ditado popular circulante por aí "Os perfis de uma pessoa dizem muito sobre ela". E sabem que mais? Não podia ser mais ficticiamente verdade.

Aos olhos dos meus colegas de turma, eu sou a pessoa que deio transparecer e, como tal, o meu Twitter, as minhas fotos e as coisas que publico seja onde forem, são o espelho da personalidade que todos conhecem. Mas quem sou eu? Não sei.

No fundo quero ser aquilo que agrade os outros. Quero agradar a todo o mundo mas não sei como conseguir tal proeza. Gosto do que os outros gostarem. Dou like e sigo quem os outros considerarem. Tiro fotografias com poses que não lembram ao diabo com o único propósito de mostrar que tudo é ótimo e que não há razões para duvidar do facto de eu ser a criatura com idades compreendidas entre os 13 e os 18 anos de sempre.

Os 16 anos são descritos por todos como a idade das primeiras coisas. Quase tudo o que fazemos a este ponto é pela primeira vez, ou pelo menos, assim diz o esterótipo. É aqui que nos dividimos. Quem tiver experienciado certas situações é "grande rei/rainha". Quem não o tiver feito deve mesmo continuar na ignorância dos outros, porque caso saibam com provas que isso é assim vocês são postos de lado.

Pode parecer um pouco à toa, mas todos sabem que a única série que considero fiel ao que é ser a adolescência, chama-se Skam. Se me identifiquei com o original, hoje quando encontrei o trailer da versão espanhola tudo fez ainda mais sentido.

Assim, deixo-vos aqui o espelho de tudo aquilo que sinto quanto ao que é ser adolescente hoje em dia numa compilação de um minuto.

 

07
Set18

Sou a DUFF do grupo

D.U.F.F. Designated Ugly Fat Friend. Designada a Amiga Feia e Gorda.

Qualquer pessoa pode ser a Duff do grupo, qualquer pessoa. Basta não sobressair tanto quanto as amigas que imediatamente essa pessoa se torna na Duff do grupo. Eu sei que sempre fui e sempre serei a do meu.

Torno-me na amiga que tem que lidar com o facto de os rapazes se chegarem a mim para quererem que os ajude a arranjarem uma chance com as minhas amigas. Ridículo? Pode parecer, mas é a verdade.

Como já estão cansadíssimos de saber, toda a minha vida foi a miúda gorda da turma. No meu 9º ano tinha uma amiga como eu, só que estamos em escolas diferentes e as miúdas da minha turma que têm um corpo parecido ao meu, acabam por se abstrair muito das situações e, consequentemente, passar por baixo do radar (ainda que também lidem com episódios muito infelizes com pessoas que as tratam mal pelo aspeto). Eu não.

No 10º ano, deparei-me com miúdas anti-rapazes (aquelas que não arranjam namorada e depois quem arranja caem-lhes em cima, ainda que não o possam ver), mas também me deparei com uma turma muito namoradeira, na qual toda a gente tinha namorados ou namoradas ou mesmo amigos coloridos.

Eu comecei o ano também com uma espécie de namorado (a este ponto, olhando para trás, eu nem sei o que era aquilo) de outra escola, que decidi manter secreto e guardar para mim. Até que claro, o meu segredo foi descoberto.

A primeira reação que obtive após ouvir tantas conversas que elas tinham umas com as outras nas quais eu me sentia de fora foi "Tu? Tu tens um namorado?" e a rirem-se de mim. Eu tinha e não ia mentir porque já não adiantava nada do que eu pudesse sequer dizer.

Prosseguindo, aí começaram as apostas sobre como era o meu namorado. E um dia, quando eu estava a falar com ele e me pressionaram a mostrar uma foto dele (isto após mais de um mês de insistência), eu lá acabei por mostrar. Um rapaz alto, magro e que poderia não ser o rapaz mais bonito de sempre, mas que ao mesmo tempo não era feio.

Ficou tudo surpreendido. E a surpresa não parou até descobrirem que eu, como qualquer rapariga da minha idade, já tinha gostado de outros rapazes (aquelas paixonetas da adolescência que toda a gente tem) e que inclusive tinha namorado um deles, que por sua vez era magro, alto e até que era giro.

Toda a gente ficou chocada como eu, uma rapariga que mais parecia uma baleia acabada de dar à costa, tinha ousado em ter namorado com alguém ou sequer ter gostado de alguém. Pior, como é que alguém tinha gostado de mim.

Depois começou a conversa sobre o porquê de as relações terem acabado. Ouvi comentários como os "De certeza que arranjou uma mais gira e mais magra". E confesso que me custou ouvir, até porque das duas vezes era verdade.

No fundo, todas as conversas dos namorados e dos crushes nas quais eu só ouvia porque não tinha nada para contar, todos os comentários maldosos escondidos com falsa amizade "Um dia vais encontrar alguém, só vais demorar mais tempo" acabavam por me deixar de lado. E às vezes parecia de propósito.

Pode parecer superficial, mas custa que elas tocassem sempre nesses assuntos e me tornassem na amiga à qual ele ia perguntar coisas sobre ela, mas que depois eu tivesse que ou ser solteira ou namorar com alguém que eu não gostasse só porque tinha uma estrutura de corpo diferente da minha.

Outras vezes eram aquelas conversas sobre as roupas, nas quais me queriam fazer experimentar roupas que me ficavam ridículas, sendo que quando as vestia me apetecia chorar rios. 

Eu, tal como muitas adolescentes designadas como "gordas" temos que ser aquela que ninguém quer e que não pode ousar namorar com alguém mais "atraente" porque não sou digna deles. Dói muito ser essa amiga.

Dói ser a amiga que um dia mais tarde acaba por ficar de vela, aquela que é sempre deixada para trás. Dói ser a amiga à qual toda a gente liga para contrar os lamúrios amorosos, e com quem se dão quando estão solteiras mas que à primeira oportunidade deixam platanda. 

Quando era mais nova, houve uma altura que todos os meus amigos namoravam ou pelo menos já tinham namorado e tinham aqueles lancezitos... eu não. Lembro-me de uma vez contar que estava a começar a gostar de um rapazito que na altura se sentava ao meu lado e receber como resposta assim imediata "Esquece, tipo faz delete. Ele nunca vai reparar em ti". Eu lembro-me de chegar a um ponto em que chorei e pensei cá para comigo "Porque é que eu não sou suficiente?".

Recentemente cheguei a uma conclusão. Eu sou suficiente. Eu sou mais que suficiente. A minha aparência não é um motivo para me deixarem de parte, não é um motivo para um rapaz me virar a cara. Pelo menos não devia ser assim... E não é. No dia em que alguém me aceitar como sou, então aí saberei que isto está certo. Se me amarem, amam-me como sou, não importa o número na balança, ou a barriguinha lisa.

Por agora, eu sou a Duff. Eu sou aquela a quem toda a gente liga e de quem todos se lembram quando se chateiam ou acabam com os namorados ou namoradas. Mas um dia, um dia eu também terei a oportunidade de ter alguém. E se esse dia nunca chegar... então não chegará e eu continuarei a ser a Duff com todo o orgulho porque eu sou suficientemente boa, nem que seja para mim própria.

Isto ficou meio confuso, mas eu precisava de falar do assunto. Eu precisava de deitar cá para fora.

10
Jul18

Os complexos de uma adolescente do século XXI

Trago hoje ( e a horas indecentes) um post muito mais emocional e pessoal que aquilo que gostaria. Raramente me abro acerca do meu corpo ou da minha aparência física. Já me ouviram falar dezenas de vezes sobre a escola e têm noção (isto porque eu decido mencionar) que tenho algumas problemáticas muito pessoais. Hoje, inspirada por um vídeo da Rita Serrano, uma youtuber portuguesa que admiro imenso, apesar de não a acompanhar "religiosamente", decidi partilhar convosco os meus complexos.

É de conhecimento geral que toda esta onda das redes sociais e do crescimendo do ramo da moda e da ascenção dos grandes estereótipos de beleza (que apesar de existirem há muitos anos, têm conquistado uma grande supremacia no nosso dia a dia), tem causado aos jovens doenças do foro piscológico que podem ir de doenças comuns para este século (não desvalorizando as suas consequências), como a ansiedade e a depressão, até a doenças que ainda com origens psicológicas se manifestam fisicamente, como os distúrbios alimentares (e isto inclui anoréxias nervosas, bulímias nervosas, obesidades e muitos outros. Sim, antes que alguém estranhe, a obesidade é um distúrbio alimentar que aumenta em massa a cada dia).

Para quem me segue há pouco tempo, provavelmente não tem noção de como sou fisicamente. Vou passar a uma breve descrição não muito detalhada, pois isso virá com os meus complexos. Sou uma rapariga relativamente baixa, dependendo da ideia de cada um, de cabelos ruivos médios, olhos castanhos, algumas sardas, mas possuo uma estrutura óssea bastante larga só por mim mesma.

Assim, para se enquadrarem ligeiramente e criarem uma ideia de quem sou, posso começar por então expandir o assunto e começar a falar dos dois aspetos que mais me "tiram o sono" - dentes e corpo (figura).

Começando por aquilo que não me vai fazer alongar muito, que são os dentes. É muito simples, tenho os dentes meios amarelos por motivos que estão explicados aqui em baixo, e perante a falta de capacidade que tenho em fazer um branqueamento (porque isto o dinheiro não estica e há coisas bem, bem mais importantes que ter dentes brancos), assim ficarão até ao dia em que poder fazer algo para o mudar. Juntando mais lenha à fogueira, tenho uma ligeira (quase impercetível) sobreposição de um dente sobre outro, ainda assim como não se nota praticamente nada, eu nem uso aparelho (nem faria sentido, tenho todos os dentes perfeitinhos, não valia a pena gastar dinheiro por uma coisinha de nada). Mas isto não é algo que me faça sentir terrível, claro que me entristece porque todas as minhas amigas têm dentes branquinhos e eu não tenho, no entanto não impacta assim tanto a minha confiança. O que sim impacta é que eu tenho uma mancha bastante notável no meu dente da frente, e quando digo notável, é caso para abrir a boca e se notar de imediato. Isso custa-me bastante porque é uma caraterística minha e não há mesmo cura possível, nasceu e vai morrer comigo. E essa sensação de impotência e de ter que ouvir comentários como "Se lavasses os dentes talvez ficassem mais brancos e tirasses essa mancha horrorosa" não é lá muito agradável.

Indo agora para a parte que mais me perturba que é o meu peso e o corpo que tenho. Há uns tempos, expus a situação e tentei lidar com ela utilizando uma rubrica que acabou por morrer, eu simplesmente decidi que era algo demasiado pessoal para partilhar, posso sempre partilhar uma coisa ou outra, mas não tudo. 

Continuando, eu tenho 16 anos como se sabe, e durante estes meus 16 anos de vida se há coisa que eu nunca fui é magra. Não me lembro de ter sido magra e não há fotos minhas em que estou magra. E muito sinceramente, nunca vou poder ser uma rapariga magrinha porque nem os meus ossos permitem. Faz parte de mim e não posso mudar o meu metabolismo que só consegue fazer-me engordar ou os meus ossos que teimaram em ser largos. O que posso tentar controlar é o meu peso, o que é bastante difícil porque parece que só de respirar fico mais inchada que um balão. E eu sei que parece que lido muito bem com isto, mas não lido nada, mas é que mesmo nada bem.

Desde criança que tinha problemas com o meu peso. Ficava muito envergonhada quando tinha que me pesar em frente dos meus colegas (raio da escola também tinha que fazer testes destes), ou usar o meu peso como dado para alguns problemas de matemática (raio da professora sem imaginação nenhuma). Brincar no recreio era complicado porque as meninas não gostavam de mim porque eu não era tão magrinha quanto elas, e os rapazes simplesmente gostavam de me comparar às outras e fazer piadinhas. Com o tempo habituei-me mas ainda custa ouvir algumas coisas.

Entretanto, chegou a maldita da adolescência. O primeiro contacto com as redes sociais e com os estereótipos que me eram impostos. Porque em criança, ser gordinha até é fofinho, mas não em adolescente ou adulta. Comecei a ganhar uma doentia obceção com o meu corpo e a reparar que efetivamente, eu era gorda (isto porque até lá eu achava que era igual às outras e não tinha a perceção de ser assim tão diferente). Só pensava nas calorias que ia ingerir, qualquer saída com as minhas amigas elas comiam as gordices todas como gelados e porcarias de todos os tipos, eu bebia água (de sabores se estivesse num bom dia). Olhava muito ao espelho e era maníaca não tanto com o peso, mas com a minha aparência, o que as pessoas viam. O problema era o facto de eu me ver de forma diferente. Assim, tive um início de anoréxia, que acabou por não durar muito tempo. É aqui que chegamos aos dentes amarelos.

Por volta dos meus 14 anos ou algo assim, descobri que se vomitasse poderia comer mas ainda assim emagrecer, o que não era assim tão mau e seria muito mais difícil ser descoberta. Como tinha pais ausentes, nunca se saberia. Mas não era assim tão simples. Continuei a comer misérias ou a saltar todas as refeições que conseguisse (tomando proporções em que a minha mãe foi dar comigo quase desmaiada na banheira a tremer com frio), só que era então que tinha um impulso gigante e comia tudo e mais alguma coisa até não conseguir mais, e depois como me sentia culpada, eu vomitava tudo. Emagreci uns quilogramas, até que os meus amigos começaram a notar e felizmente consegui sair da situação. No entanto, tive várias recaídas (uma este ano inclusive) e ela voltava. Acho que quando temos um problema destes, ele nunca desaparece. Fica à espera de um momento oportuno para dar o strike e fazer-nos cair nos velhos hábitos de novo.

Enfim, o facto de ser a amiga gorda não ajudava. Todas as visitas à loja das magras (como eu lhe chamo) eram um verdadeiro pesadelo e uma facada na minha auto-estima (que já era bem escassa). E claro, chegou a um ponto em que todas tinha namorado no grupo, todas menos eu. Foi muito complicado porque todos os rapazes gostavam delas, mas nenhum gostava de mim, nem se interessava. Até que no 9º ano eu tive finalmente, após tantos anos a ver as minhas amigas a trocar de namorados, o meu primeiro namorado.

E agora vocês pensam que isto melhorou a minha autoestima? Não. Nem um bocadinho. E porquê? Porque eu vivia sobre a pressão de ter que conseguir ser "tão boa" quanto as outras. Comecei a ser mais artificial, a maquilhar-me e arranjar-me muito mais, para que todos se esquecessem das minhas falhas. Só que ele trocou-me por outra mais magra e mais bonita que eu (e isso minha gente, custou muito e mexeu com o meu psicológico de uma forma que não conseguem imaginar. Ela era uma amiga muito próxima). Era uma relação tóxica que não acabei até perceber que estava a chegar a um limite, ele andava com outras nas minhas costas, comentava e olhava para outras, e estava comigo para dizer que tinha namorada. Não chorei quando acabou, porém a minha ingrata "amiga" fez-me mais uma visita desagradável e tudo piorou.

Durante esse espaço de tempo, acabei por me refugiar no cuidado a mim mesma. Tornei-me uma pessoa mais fria com os outros e com as situações que me rodeavam, parecia extremamante confiante, tudo para chegar a casa e chorar compulsivamente no duche.

Lá dei a volta por cima mais uma vez, mas sozinha. Fico orgulhosa por ter conseguido derrotá-la sem ajuda de ninguém, e ainda com algumas recaídas, passei este tempo de forma tranquila.

Fui a uma nutricionista em abril e fui diagnosticada com obesidade. As minhas análises são um pouco preocupantes porque infelizmente herdei colestrol e glicose alta da minha família, e agregada à má alimentação que tive em criança, a coisa estava crítica. Eu acabo sempre por dar a volta por cima, mas não deixa de ser algo a estar sempre a controlar.

Com isto tudo, posso dizer que não aceito o meu corpo. Custa-me estar nas redes sociais e por vezes estar com amigas porque não entendem e fazem comentários que me incomodam profundamente acerca de assuntos que para mim são frágeis. Da mesma forma como me incomoda que não respeitem o facto de eu usar aquilo que gosto de ver em mim.

Posso fazer com que não se note porque com estes anos todos, eu sei vestir-me para enganar os outros. Sei esconder a gordura de forma eficaz. Claro que se nota sempre, mas muito menos acentuadamente.

Estes são os complexos de uma adolescente gorda do século XXI. Agora, relembro que as adolescentes magras também têm os seus complexos, e os rapazes também são seres humanos e também os têm. Ora, com isto tudo, quero pedir que se pare com o facto de compararem e classificarem problemas, do género o meu é maior que o teu. Não temos a autoridade para o fazer, nenhum sofrimento deve ser desvalorizado. 

 

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