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Chavena de Chá das Cinco

Uma chávena de chá, um prato com biscoitos e conversas intermináveis

Chavena de Chá das Cinco

Uma chávena de chá, um prato com biscoitos e conversas intermináveis

07
Set18

Sou a DUFF do grupo

D.U.F.F. Designated Ugly Fat Friend. Designada a Amiga Feia e Gorda.

Qualquer pessoa pode ser a Duff do grupo, qualquer pessoa. Basta não sobressair tanto quanto as amigas que imediatamente essa pessoa se torna na Duff do grupo. Eu sei que sempre fui e sempre serei a do meu.

Torno-me na amiga que tem que lidar com o facto de os rapazes se chegarem a mim para quererem que os ajude a arranjarem uma chance com as minhas amigas. Ridículo? Pode parecer, mas é a verdade.

Como já estão cansadíssimos de saber, toda a minha vida foi a miúda gorda da turma. No meu 9º ano tinha uma amiga como eu, só que estamos em escolas diferentes e as miúdas da minha turma que têm um corpo parecido ao meu, acabam por se abstrair muito das situações e, consequentemente, passar por baixo do radar (ainda que também lidem com episódios muito infelizes com pessoas que as tratam mal pelo aspeto). Eu não.

No 10º ano, deparei-me com miúdas anti-rapazes (aquelas que não arranjam namorada e depois quem arranja caem-lhes em cima, ainda que não o possam ver), mas também me deparei com uma turma muito namoradeira, na qual toda a gente tinha namorados ou namoradas ou mesmo amigos coloridos.

Eu comecei o ano também com uma espécie de namorado (a este ponto, olhando para trás, eu nem sei o que era aquilo) de outra escola, que decidi manter secreto e guardar para mim. Até que claro, o meu segredo foi descoberto.

A primeira reação que obtive após ouvir tantas conversas que elas tinham umas com as outras nas quais eu me sentia de fora foi "Tu? Tu tens um namorado?" e a rirem-se de mim. Eu tinha e não ia mentir porque já não adiantava nada do que eu pudesse sequer dizer.

Prosseguindo, aí começaram as apostas sobre como era o meu namorado. E um dia, quando eu estava a falar com ele e me pressionaram a mostrar uma foto dele (isto após mais de um mês de insistência), eu lá acabei por mostrar. Um rapaz alto, magro e que poderia não ser o rapaz mais bonito de sempre, mas que ao mesmo tempo não era feio.

Ficou tudo surpreendido. E a surpresa não parou até descobrirem que eu, como qualquer rapariga da minha idade, já tinha gostado de outros rapazes (aquelas paixonetas da adolescência que toda a gente tem) e que inclusive tinha namorado um deles, que por sua vez era magro, alto e até que era giro.

Toda a gente ficou chocada como eu, uma rapariga que mais parecia uma baleia acabada de dar à costa, tinha ousado em ter namorado com alguém ou sequer ter gostado de alguém. Pior, como é que alguém tinha gostado de mim.

Depois começou a conversa sobre o porquê de as relações terem acabado. Ouvi comentários como os "De certeza que arranjou uma mais gira e mais magra". E confesso que me custou ouvir, até porque das duas vezes era verdade.

No fundo, todas as conversas dos namorados e dos crushes nas quais eu só ouvia porque não tinha nada para contar, todos os comentários maldosos escondidos com falsa amizade "Um dia vais encontrar alguém, só vais demorar mais tempo" acabavam por me deixar de lado. E às vezes parecia de propósito.

Pode parecer superficial, mas custa que elas tocassem sempre nesses assuntos e me tornassem na amiga à qual ele ia perguntar coisas sobre ela, mas que depois eu tivesse que ou ser solteira ou namorar com alguém que eu não gostasse só porque tinha uma estrutura de corpo diferente da minha.

Outras vezes eram aquelas conversas sobre as roupas, nas quais me queriam fazer experimentar roupas que me ficavam ridículas, sendo que quando as vestia me apetecia chorar rios. 

Eu, tal como muitas adolescentes designadas como "gordas" temos que ser aquela que ninguém quer e que não pode ousar namorar com alguém mais "atraente" porque não sou digna deles. Dói muito ser essa amiga.

Dói ser a amiga que um dia mais tarde acaba por ficar de vela, aquela que é sempre deixada para trás. Dói ser a amiga à qual toda a gente liga para contrar os lamúrios amorosos, e com quem se dão quando estão solteiras mas que à primeira oportunidade deixam platanda. 

Quando era mais nova, houve uma altura que todos os meus amigos namoravam ou pelo menos já tinham namorado e tinham aqueles lancezitos... eu não. Lembro-me de uma vez contar que estava a começar a gostar de um rapazito que na altura se sentava ao meu lado e receber como resposta assim imediata "Esquece, tipo faz delete. Ele nunca vai reparar em ti". Eu lembro-me de chegar a um ponto em que chorei e pensei cá para comigo "Porque é que eu não sou suficiente?".

Recentemente cheguei a uma conclusão. Eu sou suficiente. Eu sou mais que suficiente. A minha aparência não é um motivo para me deixarem de parte, não é um motivo para um rapaz me virar a cara. Pelo menos não devia ser assim... E não é. No dia em que alguém me aceitar como sou, então aí saberei que isto está certo. Se me amarem, amam-me como sou, não importa o número na balança, ou a barriguinha lisa.

Por agora, eu sou a Duff. Eu sou aquela a quem toda a gente liga e de quem todos se lembram quando se chateiam ou acabam com os namorados ou namoradas. Mas um dia, um dia eu também terei a oportunidade de ter alguém. E se esse dia nunca chegar... então não chegará e eu continuarei a ser a Duff com todo o orgulho porque eu sou suficientemente boa, nem que seja para mim própria.

Isto ficou meio confuso, mas eu precisava de falar do assunto. Eu precisava de deitar cá para fora.

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