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Chavena de Chá das Cinco

Uma chávena de chá, um prato com biscoitos e conversas intermináveis

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10
Jul18

Os complexos de uma adolescente do século XXI

Trago hoje ( e a horas indecentes) um post muito mais emocional e pessoal que aquilo que gostaria. Raramente me abro acerca do meu corpo ou da minha aparência física. Já me ouviram falar dezenas de vezes sobre a escola e têm noção (isto porque eu decido mencionar) que tenho algumas problemáticas muito pessoais. Hoje, inspirada por um vídeo da Rita Serrano, uma youtuber portuguesa que admiro imenso, apesar de não a acompanhar "religiosamente", decidi partilhar convosco os meus complexos.

É de conhecimento geral que toda esta onda das redes sociais e do crescimendo do ramo da moda e da ascenção dos grandes estereótipos de beleza (que apesar de existirem há muitos anos, têm conquistado uma grande supremacia no nosso dia a dia), tem causado aos jovens doenças do foro piscológico que podem ir de doenças comuns para este século (não desvalorizando as suas consequências), como a ansiedade e a depressão, até a doenças que ainda com origens psicológicas se manifestam fisicamente, como os distúrbios alimentares (e isto inclui anoréxias nervosas, bulímias nervosas, obesidades e muitos outros. Sim, antes que alguém estranhe, a obesidade é um distúrbio alimentar que aumenta em massa a cada dia).

Para quem me segue há pouco tempo, provavelmente não tem noção de como sou fisicamente. Vou passar a uma breve descrição não muito detalhada, pois isso virá com os meus complexos. Sou uma rapariga relativamente baixa, dependendo da ideia de cada um, de cabelos ruivos médios, olhos castanhos, algumas sardas, mas possuo uma estrutura óssea bastante larga só por mim mesma.

Assim, para se enquadrarem ligeiramente e criarem uma ideia de quem sou, posso começar por então expandir o assunto e começar a falar dos dois aspetos que mais me "tiram o sono" - dentes e corpo (figura).

Começando por aquilo que não me vai fazer alongar muito, que são os dentes. É muito simples, tenho os dentes meios amarelos por motivos que estão explicados aqui em baixo, e perante a falta de capacidade que tenho em fazer um branqueamento (porque isto o dinheiro não estica e há coisas bem, bem mais importantes que ter dentes brancos), assim ficarão até ao dia em que poder fazer algo para o mudar. Juntando mais lenha à fogueira, tenho uma ligeira (quase impercetível) sobreposição de um dente sobre outro, ainda assim como não se nota praticamente nada, eu nem uso aparelho (nem faria sentido, tenho todos os dentes perfeitinhos, não valia a pena gastar dinheiro por uma coisinha de nada). Mas isto não é algo que me faça sentir terrível, claro que me entristece porque todas as minhas amigas têm dentes branquinhos e eu não tenho, no entanto não impacta assim tanto a minha confiança. O que sim impacta é que eu tenho uma mancha bastante notável no meu dente da frente, e quando digo notável, é caso para abrir a boca e se notar de imediato. Isso custa-me bastante porque é uma caraterística minha e não há mesmo cura possível, nasceu e vai morrer comigo. E essa sensação de impotência e de ter que ouvir comentários como "Se lavasses os dentes talvez ficassem mais brancos e tirasses essa mancha horrorosa" não é lá muito agradável.

Indo agora para a parte que mais me perturba que é o meu peso e o corpo que tenho. Há uns tempos, expus a situação e tentei lidar com ela utilizando uma rubrica que acabou por morrer, eu simplesmente decidi que era algo demasiado pessoal para partilhar, posso sempre partilhar uma coisa ou outra, mas não tudo. 

Continuando, eu tenho 16 anos como se sabe, e durante estes meus 16 anos de vida se há coisa que eu nunca fui é magra. Não me lembro de ter sido magra e não há fotos minhas em que estou magra. E muito sinceramente, nunca vou poder ser uma rapariga magrinha porque nem os meus ossos permitem. Faz parte de mim e não posso mudar o meu metabolismo que só consegue fazer-me engordar ou os meus ossos que teimaram em ser largos. O que posso tentar controlar é o meu peso, o que é bastante difícil porque parece que só de respirar fico mais inchada que um balão. E eu sei que parece que lido muito bem com isto, mas não lido nada, mas é que mesmo nada bem.

Desde criança que tinha problemas com o meu peso. Ficava muito envergonhada quando tinha que me pesar em frente dos meus colegas (raio da escola também tinha que fazer testes destes), ou usar o meu peso como dado para alguns problemas de matemática (raio da professora sem imaginação nenhuma). Brincar no recreio era complicado porque as meninas não gostavam de mim porque eu não era tão magrinha quanto elas, e os rapazes simplesmente gostavam de me comparar às outras e fazer piadinhas. Com o tempo habituei-me mas ainda custa ouvir algumas coisas.

Entretanto, chegou a maldita da adolescência. O primeiro contacto com as redes sociais e com os estereótipos que me eram impostos. Porque em criança, ser gordinha até é fofinho, mas não em adolescente ou adulta. Comecei a ganhar uma doentia obceção com o meu corpo e a reparar que efetivamente, eu era gorda (isto porque até lá eu achava que era igual às outras e não tinha a perceção de ser assim tão diferente). Só pensava nas calorias que ia ingerir, qualquer saída com as minhas amigas elas comiam as gordices todas como gelados e porcarias de todos os tipos, eu bebia água (de sabores se estivesse num bom dia). Olhava muito ao espelho e era maníaca não tanto com o peso, mas com a minha aparência, o que as pessoas viam. O problema era o facto de eu me ver de forma diferente. Assim, tive um início de anoréxia, que acabou por não durar muito tempo. É aqui que chegamos aos dentes amarelos.

Por volta dos meus 14 anos ou algo assim, descobri que se vomitasse poderia comer mas ainda assim emagrecer, o que não era assim tão mau e seria muito mais difícil ser descoberta. Como tinha pais ausentes, nunca se saberia. Mas não era assim tão simples. Continuei a comer misérias ou a saltar todas as refeições que conseguisse (tomando proporções em que a minha mãe foi dar comigo quase desmaiada na banheira a tremer com frio), só que era então que tinha um impulso gigante e comia tudo e mais alguma coisa até não conseguir mais, e depois como me sentia culpada, eu vomitava tudo. Emagreci uns quilogramas, até que os meus amigos começaram a notar e felizmente consegui sair da situação. No entanto, tive várias recaídas (uma este ano inclusive) e ela voltava. Acho que quando temos um problema destes, ele nunca desaparece. Fica à espera de um momento oportuno para dar o strike e fazer-nos cair nos velhos hábitos de novo.

Enfim, o facto de ser a amiga gorda não ajudava. Todas as visitas à loja das magras (como eu lhe chamo) eram um verdadeiro pesadelo e uma facada na minha auto-estima (que já era bem escassa). E claro, chegou a um ponto em que todas tinha namorado no grupo, todas menos eu. Foi muito complicado porque todos os rapazes gostavam delas, mas nenhum gostava de mim, nem se interessava. Até que no 9º ano eu tive finalmente, após tantos anos a ver as minhas amigas a trocar de namorados, o meu primeiro namorado.

E agora vocês pensam que isto melhorou a minha autoestima? Não. Nem um bocadinho. E porquê? Porque eu vivia sobre a pressão de ter que conseguir ser "tão boa" quanto as outras. Comecei a ser mais artificial, a maquilhar-me e arranjar-me muito mais, para que todos se esquecessem das minhas falhas. Só que ele trocou-me por outra mais magra e mais bonita que eu (e isso minha gente, custou muito e mexeu com o meu psicológico de uma forma que não conseguem imaginar. Ela era uma amiga muito próxima). Era uma relação tóxica que não acabei até perceber que estava a chegar a um limite, ele andava com outras nas minhas costas, comentava e olhava para outras, e estava comigo para dizer que tinha namorada. Não chorei quando acabou, porém a minha ingrata "amiga" fez-me mais uma visita desagradável e tudo piorou.

Durante esse espaço de tempo, acabei por me refugiar no cuidado a mim mesma. Tornei-me uma pessoa mais fria com os outros e com as situações que me rodeavam, parecia extremamante confiante, tudo para chegar a casa e chorar compulsivamente no duche.

Lá dei a volta por cima mais uma vez, mas sozinha. Fico orgulhosa por ter conseguido derrotá-la sem ajuda de ninguém, e ainda com algumas recaídas, passei este tempo de forma tranquila.

Fui a uma nutricionista em abril e fui diagnosticada com obesidade. As minhas análises são um pouco preocupantes porque infelizmente herdei colestrol e glicose alta da minha família, e agregada à má alimentação que tive em criança, a coisa estava crítica. Eu acabo sempre por dar a volta por cima, mas não deixa de ser algo a estar sempre a controlar.

Com isto tudo, posso dizer que não aceito o meu corpo. Custa-me estar nas redes sociais e por vezes estar com amigas porque não entendem e fazem comentários que me incomodam profundamente acerca de assuntos que para mim são frágeis. Da mesma forma como me incomoda que não respeitem o facto de eu usar aquilo que gosto de ver em mim.

Posso fazer com que não se note porque com estes anos todos, eu sei vestir-me para enganar os outros. Sei esconder a gordura de forma eficaz. Claro que se nota sempre, mas muito menos acentuadamente.

Estes são os complexos de uma adolescente gorda do século XXI. Agora, relembro que as adolescentes magras também têm os seus complexos, e os rapazes também são seres humanos e também os têm. Ora, com isto tudo, quero pedir que se pare com o facto de compararem e classificarem problemas, do género o meu é maior que o teu. Não temos a autoridade para o fazer, nenhum sofrimento deve ser desvalorizado. 

 

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