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Chavena de Chá das Cinco

Uma chávena de chá, um prato com biscoitos e conversas intermináveis

Chavena de Chá das Cinco

Uma chávena de chá, um prato com biscoitos e conversas intermináveis

03
Abr18

O mundo perante os olhos de uma adolescente

O dia começa às 07:00 com a voz da minha mãe a acordar-me. Às 07:10 é hora do pequeno-almoço, uma torrada e uma chávena de chá. Lavar os dentes, vestir o casaco, pegar na mochila e estou fora de casa.

Ruas em movimento. Uma das cidades mais movimentadas em Portugal levanta-se cedo, talvez muito mais cedo que eu própria. As pessoas passam, mas ninguém diz bom-dia. Em vez disso, movem-se com pressa para chegar onde quer que tenham de chegar àquela hora, olham para o chão calmamente ou simplesmente põem os fones nos ouvidos e desligam-se do mundo.

O vento bate-me na cara. Se há dias em que sabe bem, há outros que me faz impressão. Mas eu própria não tenho muito tempo para pensar em qualquer coisa, exceto o facto de ter que correr porque dessa forma perderia o autocarro - o que não seria um grande problema porque posso apanhar praticamente qualquer um, e caso não me apeteça, peço ao meu pai que me leve de carro quando deixar a minha irmã.

No autocarro, outro sítio monótono. Apenas ouvimos aquele barulho de fundo de campainha, que vai tocando de vez em quando. Às vezes há muita gente, outras vezes nem tanto. Para mim é quase igual, a única diferença é que num dia me posso sentar e evitar qualquer incómodo ligado a apalpões indesejados de desconhecidos (porque, infelizmente, já passei pela experiência mais que uma vez em pleno autocarro), nos outros tenho que ficar de pé, agarrado onde quer que consiga para evitar quedas estúpidas e completamente fatais, já que andar de vestido e saia uma boa parte dos dias não é propriamente fácil.

Algo que entendi com andar de autocarro é que há sempre um grupo de velhotas que adora cuscuvilhar, um grupo de amigos que vai para a mesma escola, os que falam ao telemóvel com alguém (abençoada seja a pessoa que lhes atende àquela hora da manhã), e aqueles que, como eu, não tem amigos como companhia e se encontram sozinhos a olhar para as ruas que já tão bem conhecem, à espera que chegue o momento de carregarem no botãozinho e sair nas paragens.

Confesso que este é um momento que anseio cada vez que vejo o autocarro aproximar-se. Não gosto de andar por lá. Sinto que tenho demasiados olhares em cima, e definitivamente, por mais que tente, não consigo tirar os ouvidos e deixar de ouvir certas conversas, especialmente quando o tema são pessoas que eu conheço.

Assim, quando saio do autocarro e o som dos saltos é causado pelo passeio, sinto-me mais aliviada. Mas é um alívio que não dura lá muito, há sempre pessoas que me seguem pelo mesmo caminho (ainda que eu tenha sido a primeira a usá-lo e não pretendo deixá-lo para ir pelo caminho da enorme, dolorosa subida fatal, mais uma vez, por ser a rua principal), uma rua recatada que é um atalho para o local onde vou ter que passar o resto do dia. Geralmente essas pessoas são constituídas por três grupos - as contínuas, as divas cujos pais não querem saber minimamente de onde andam, logo estão a falar dos rapazes com quem já estiveram até à data, e os rapazes, não aqueles de que elas falam, mas sim aqueles que são amigos delas, mas que preferem ter uma conversa de homens.

Admito que algumas crónicas poderiam dar um livro de comédia para adolescentes de hormonas aos saltos e cujo único objetivo é estar com o máximo de pessoas possível até ao final do secundário, como se isso lhes fosse servir como um passe para a glória na Faculdade.

Mais uma vez, tento caminhar mais rápido para ir à frente e não ter que as ouvir, mas há dias em que estou demasiado cansada e acabo por optar ficar para trás, ainda que corra o risco de por acaso ouvir qualquer coisa que não seja do meu agrado.

As raparigas continuam, abanando as suas ancas propositadamente de forma a atrair os olhos da próxima "vítima", os rapazes param num beco que me dá arrepios só de passar por ele, com o único propósito de fumar, alguns tabaco, outros fumam os charros, outros bebem um bocadinho para começar o dia. É estranho pensar que uns quantos já foram meus colegas de escola, e que agora parecem estranhos.

Finalmente chego aos semáforos, corro o mais rápido possível para passar pela passadeira a tempo, e finalmente aproximo-me do meu destino final. Tiro o cartão, passo-o e digo bom-dia ao porteiro sorrindo-lhe, não porque sou falsa, mas porque sou sincera.

Continuo a caminhar até ao sítio onde terei aulas, após subir as infindáveis escadarias do sítio arcaico (que toda a gente concorda que necessita de uma renovação, já que uma parte foi renovada, mas que o restante continua com o mesmo aspeto de há 80 anos atrás).

Caminho pelo longo corredor, alguns alunos encontram-se já sentados, mas ninguém da minha turma. Sento-me perto da porta, ou simplesmente fico em pé, encostada à parede, saco o telemóvel e ligo ao meu pai. Só para dizer que cheguei bem. Fico à espera que alguém chegue, enquanto estou no Instagram a ver as novidades, até que começam a chegar. Dizemos pouco mais que bom-dia, e apenas quando os corredores se começam a encher, começamos a falar com aqueles que vão chegando, acerca de um assunto qualquer que esteja na berra, seja pelo vídeo que ficou viral no Colégio nos últimos dias, seja pelas novidades que estão na berra.

A campainha toca. Pegamos nas mochilas ainda a contragosto e vamos para a sala de aula, como se esse fosse a forca, sentamo-nos por ordem alfabética (aldrabando sempre que possível), aí instala-se a feira. Uns esqueceram-se de colocar os telemóveis em cima da mesa à entrada, o professor não começa a aula (mesmo querendo começar), o barulho toma conta da sala.

E este mesmo processo repete-se ao longo dos tempos da manhã. Quando toca para o almoço vamos a correr, mesmo sendo proibido correr nos corredores. Há regras que foram feitas para ninguém as cumprir, ainda que devêssemos.

A fila cresce, uns passam à frente, outros (e esses são poucos) são honestos, mas esses contam-se com os dedos de uma mão, não passam à frente e enfrentam a sua posição com a cabeça levantada (muitas vezes para apanhar a melhor net possível, o que é uma tarefa complicada).

Eu fico com os meus amigos, somos um grupo relativamente grande. Demasiadas raparigas para contar e quatro/cinco rapazes, que podem ou não ficar connosco. Falamos dos tempos que passámos no passado, com outros amigos que temos no coração (ainda que gostemos muito uns dos outros, aqueles serão sempre os amigos de quem gostamos mais), fazendo-nos relembrar os bons momentos.

Ao aloço reunimo-nos todos na mesma mesa, piadas átoa e fotos horríveis para o countdown do aniversário que está a meses de acontecer. Eu não como muito ao almoço, não gosto da sopa da escola, a fruta não tem lá grande cara, e não me apetece comer tomate pouco maduro, então fico só pelo prato principal, que acaba por não ser lá muito tocado.

Acaba-se o almoço e aproveitamos o resto do tempo a fazer qualquer coisa, podemos ir sair, ou então ficamos na escola num sítio qualquer. Por vezes no campo, por vezes num dos vários bancos, outras na esplanada ou no interior do bar mesmo.

A campainha toca. Malditas aulas de novo. Todo o processo anterior se repete mais uma vez, e após ameaças de sairmos mais tarde do que é suposto, acabamos por sair à hora estipulada.

Eu saio com as minhas amigas. Se o meu pai me vier buscar, dá boleia a uma amiga minha que vive relativamente perto de nossa casa. Se ele não vier, eu fico à porta a falar com uma parte do grupo, fazemos um círculo e falamos de coisas random. Estar com os meus amigos faz-me rir e deixar os pensamentos que assombram muitas vezes nas aulas, inclusive quando adormeço devido ao cansaço. Mais tarde ou mais cedo, acabamos por nos despedir e eu apanho o autocarro, passando por um drama completamente diferente do da manhã.

Cada vez que apanho o autocarro à tarde, deixo passar o primeiro, e por vezes o segundo, de forma a estar em paz. Consigo sempre um lugar onde não vou ter que passar pelas frustrações mundanas de andar de autocarro, é uma viagem de paz e relaxamento acompanhada dos meus pensamentos, que apesar de maioritariamente serem tranquilos, por vezes transformam-se nos esqueletos que escondo no armário (que vão ganhando mais e mais companhia à medida que os dias passam) e isso dá-me vontade de correr para casa e tomar um banho a pensar em tudo isso, e por vezes fazer uma mistura de água salgada e água potável que passa pelo meu corpo.

Com este post, altamente deprimente, posso garantir que não é a rotina de todos os dias, mas de dias como o de hoje. Simplesmente, foi um dos piores dias do ano, mas longe de ser tão mau como outros que já passaram.

Fico triste. Triste porque as pessoas já não querem saber. Cada vez mais nos tornamos mais frios em relação às situações atuais, tantos são os casos que vemos hoje em dia na televisão. O conflito em Espanha, o terrorismo islâmico, o racismo no EUA, a possível guerra iminente entre os EUA e a Coreia do Norte. Existem outros exemplos, mas ninguém quer saber o suficiente.

Fico triste. Triste porque as pessoas são falsas. Sorriem-nos para nos espetarem facas e nos atirarem pedras nas costas. E eu sinto, e eu sei. Sei que todos os dias em que vou para a escola me fazem isso.

Fico triste. Triste porque as pessoas são hipócritas, e o pior, é que eu sou também. Sou hipócrita por criticar o facto de os outros não quererem saber e serem falsos, quando eu também sou assim. Está tão entranhado no ser humano da sociedade de hoje. Eles dizem mal de nós, e nós sabemos, mas fazemos o mesmo. Criticamos que o outro olha para o lado, mas a realidade é que a política de jogar em dois lados é a melhor possível, ou então sair neutro é ainda melhor para todos.

Fico triste. Triste porque não nos respeitamos. Enxuvalhar os outros parece que se tornou em algum tipo de divertimento qualquer, tipo o programa de família de Domingo.

O mundo está cada vez mais a afastar-se. Cada vez mais nos tornamos hipócritas, falsos, céticos, e tantas outras coisas. O mundo está a apodrecer e todos somos responsáveis.

A perspetiva do mundo nos olhos de um adolescente de 15 anos. Um dia na sua pele.

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