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Chavena de Chá das Cinco

Uma chávena de chá, um prato com biscoitos e conversas intermináveis

Chavena de Chá das Cinco

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30
Mar18

Cirurgia plástica aos 15 anos

Olá!

Após algum tempo afastada, decidi partilhar convosco um lado da minha vida muito mais pessoal que qualquer outro. 

Ao longo dos últimos meses, vocês têm vindo a conhecer os meus pontos de vista, as minhas peripécias e os meus gostos pessoais, mas há coisas que uma pessoa simplesmente tende a guardar para si própria, e este assunto é um deles.

Não vos vou contar porque vocês querem mesmo saber, até porque nunca me viram na vida e quem me vê no dia a dia só sabe o quanto necessito desta cirurgia quando eu própria dou abertura para falar do assunto.

Agora podem perguntar-se: então porque é que nos vais contar agora se é um assunto que já deu para entender que detestas falar? É simples, quero partilhar com vocês a minha ansiedade e o susto que tive há uns dias, mais precisamente ontem, dia 29 de março de 2018.

Entrei na puberdade muito mais cedo que outras raparigas, o que fazia de mim um alvo fácil de bullying, mas isso não vem ao caso no momento. O que sim, importa para a história, é que eu vi o meu corpo crescer e desenvolver-se demasiado cedo e de forma extremamente rápida. 

Não sei bem quando realmente começou, ou quando se veio a reparar em algo alertante, que era a incapacidade de comprar soutiens adequados que me fossem servir a longo prazo.

O certo foi que, por volta dos meus 14 anos (por esta altura, no passado ano de 2017), o meu pai insistiu comigo e com a minha mãe para falarmos com a médica que me acompanhava, e após meses de uma larga discussão acerca do facto de eu ter ou não um problema, fomos consultar quem realmente tinha conhecimentos válidos para avaliar a situação.

Lembro-me perfeitamente do dia em que tive que a minha médica viu o que aconteceu e rapidamente constatou algo que o meu pai já havia concluído há que tempos - efetivamente eu tinha uma deficiência nas mamas.

Não chorei. Pelo menos, não me recordo de ter chorado por causa disso. Na altura, eu era da opinião que não tinha problema nenhum e que eu simplesmente tinha um formato diferente e tamanhos que podiam distar muito um do outro, mas que não fazia diferença pois todas as mulheres têm uma mama maior que a outra.

Entretanto fui encaminhada para cirurgia plástica, esperei durante alguns meses e em Agosto fui finalmente à consulta. Falei com a cirurgiã, ela disse que me ia operar numas férias futuras que teria durante o ano e tudo ficaria bem. Explicou o que ia fazer com termos muito técnicos, mostrando onde ia tirar e voltar a por e enfim... resumindo, ia fazer-me uma reconstrução mamária.

Os meses foram passando e nada de me chamarem, foi então que dei por mim a pensar que iria demorar muito a ser operada pois a lista de espera devia ser infindável e cada vez mais existiam pessoas a entrar, sendo elas muito mais prioritárias que eu.

O problema foi ontem. Nunca tive tanto medo, quer dizer, medo não é a palavra correta. Talvez receio, e mesmo assim não consigo descrever realmente aquilo que senti.

Estava a dormir sossegada e a minha mãe foi acordar-me para me comunicar que me tinham chamado para ser operada já nesta segunda-feira de Pascuela. Teria que ir para lá domingo de Páscoa. Deslocar-me-ia ao sítio indicado pelo Hospital para comprar um soutien apropriado para o pós-operatório e a minha mãe ficaria comigo. Instantaneamente enchi-me de nervos, de ansiedade e tentei afastar tudo, mas a diferença foi que isso era mais que impossível. Tinha sido demasiado repentino. Do nada. Eu não me encontrava pronta para enfrentar o bloco operatório e tudo o que viria a partir daí.

Estava eu a mentalizar-me de tudo o que iria suportar nos dias seguintes quando o Hospital voltou a ligar à minha mãe a dizer que a operação afinal não poderia decorrer, pois o Estado tinha emitido um cheque para eu usar no privado, visto que os nove meses de prazo que o Público tinha para me operar tinham expirado.

Chorei. Chorei porque tive que passar pela aflição de ir à faca nos dias seguintes. De ter que confrontar-me com os resultados e as reações de todos os que me rodeiam. De poder enfrentar os mesmos problemas que me indicaram que poderia desenvolver se não fizesse a operação, ainda fazendo-a. Mas acima de tudo, mentalizar-me com a maior rapidez possível que era o momento de fazer aquilo e deixar os meus medos de lado - ainda que eles me governassem por completo. Chorei porque tinha passado por aquela angústia toda para nada. Para me dizerem que ia ter que repetir todos os exames que passei meses a fazer. Para me dizerem que afinal já não seria a minha vez. Para me tirarem aquilo que tinham dado. Senti-me a criança a quem lhe dão um presente para o tirarem depois.

O certo é que após horas de choro, entendi uma coisa. Nunca mais vou passar por isto. Nunca mais vou passar pela angústia de me dizerem que chegou o momento, eu ter que me preparar num espaço de tempo curtíssimo e me dizerem que afinal tudo continuará igual por mais tempo ainda.

Neste momento, para além de estar a escrever este post, estou a investigar o melhor sítio para ser operada. Estando dividida entre uma Clínica no Porto e um Hospital Privado qualquer. Os meus pais vão falar com uns amigos de forma a que eles dêem uma palavrinha a quem eles querem que me opere, o mais eficazmente possível, o mais rápido possível.

Eu tenho 15 anos, sofro de uma deficiência mamária que me pode causar diversos problemas no futuro. Quero ser operada, não pela estética, mas pelos tais problemas. Em breve vou enfrentar o bloco operatório e uma reconstrução mamária. Esta é a minha história.

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