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Chavena de Chá das Cinco

Uma chávena de chá, um prato com biscoitos e conversas intermináveis

Chavena de Chá das Cinco

Uma chávena de chá, um prato com biscoitos e conversas intermináveis

18
Set18

A última carta para ti

Ultimamente, perante algumas realidades que acabam por me confrontar de vez em quando (especialmente em pensamentos noturnos, como é o caso), noto que há algo que tenho que escrever para ti. Sim, tu que nunca hás de ler isto, que pouco ou nada sabes de mim, mesmo gritando aos quatro ventos que sou demasiado previsível e que sou um livro aberto.

No outro dia entrei na rede social na qual já não entrava há algum tempo e, por mero acaso, a tua conversa estava em primeiro (para veres há quanto tempo já não a utilizava). Foi então que reparei algo bastante interessante, bloqueaste-me. Não sei o que alguma vez te fiz para decidires tomar essa decisão, se por medo de eu algum dia te enviar uma mensagem ou se porque a tua queriduxa te pressionou (o que não me surpreende já que ela sempre te quis longe, bem longe de mim. Mesmo quando já nada de mais existia entre nós). Seja como for, deves ter tido os teus motivos que não estou preocupada em saber ou em sequer compreender.

O meu irmão disse-te uma vez que tu tinhas sorte de eu não te ter bloqueado, que te devias dar por satisfeito de eu não te ter mandado uma curva quando maior parte das raparigas o fariam. Sei que era isso que eu deveria ter feito, devia ter-te deixado mal me apercebi o quão mal me fazias, mas como em qualquer relação tóxica que se preze, eu estava demasiado dependente de ti.

Quando nos conhecemos tu recusaste-me logo na primeira conversa, - como se eu na altura tivesse algum interesse por ti, um mero estranho - o que me devia ter dado indícios mais que evidentes para me afastar de ti a todo o custo, mas lá está, não o fiz. 

Ao longo do tempo, o peixe morreu pela boca, já que tu começaste a andar atrás de mim, sendo que eu não estava nem aí para ti. Lembro-me de não te querer e de deixar isso bem claro, antes que te pusesses com testamentos que eu não tinha paciência para ler. Até que um dia, sem eu perceber bem como ou porquê, eu deixei de te dar para trás porque me despertaste interesse (podia dizer que não, mas eu entendo a razão por detrás disso) e foi aí que disse que sim. E foi aí que tu disseste mais ou menos, acabando por dizer sim dias mais tarde. Na altura, e mesmo no exato momento em que escrevo isto, entendo o que fizeste e não te recrimino por isso. 

O problema veio com o facto de o sim se ter tornado em mais ou menos, o mais ou menos se ter tornado em não, o não ter-se tornado talvez e o talvez ter-se tornado sim. No fundo, a nossa relação (que eu nem sei como designar) funcionava deste modo. Era uma espécie de ciclo repetitivo com alteração de três em três semanas. Três semanas de felicidade davam lugar a três semanas de preocupação, que mais tarde dariam lugar a três semanas de tristeza.

Foi a certo ponto que comecei eu a ter dúvidas. Os meus colegas deixavam-me com dúvidas, os meus amigos deixavam-me com dúvidas, os nossos amigos em comum deixavam-me com dúvidas, mas pior que tudo isso - tu eras a razão pela qual eu tinha as dúvidas, não eles. Tu é que falhavas comigo constantemente, tu é que brincavas com os meus sentimentos e eras tu que punhas obstáculos em sítios onde eles não estavam. Tudo era um problema, tudo era uma dificuldade, tudo era um entrave. 

Aí começaram as juras de amor incondicional nas quais me acreditei. Se há coisa de que me apercebi, é que tu me mudaste. O meu 'eu' antes de ti nunca iria nessa conversa, já o meu 'eu' depois de ti era uma miúda tonta o suficiente para acreditar na história do "Daqui a dois anos acabas a escola e eu vou estar na Faculdade e aí tudo será mais fácil"

Foram meses e meses neste ir e vir, ir e vir. Não estamos juntos mas gostamos um do outro, até que um dia apanhas um avião e ficas ausente durante duas semanas. Entras a gostar de mim, quando desembarcas após as duas semanas já tens outra. E eu ouvi tudo, permiti até que chegasses a desrespeitar-me de certo modo, e em momento algum ouvi alguém tomar o meu lado (exceto a amiga, estás cá dentro. É para a vida já). 

Cheguei a 2018 e senti-me perdida e desamparada, em parte por culpa da vida, em parte por culpa dos que me rodeavam, mas em grande parte por tua culpa. Tiraste-me de mim. Deixei de ter nome próprio e passei apenas a ser a tua namorada ou amiga, sei lá como é que tu me chamavas (no grupo de amigos sei que era a hoe, mas isso aí nem vou comentar). Claro que a culpa foi minha por permitir tal coisa, mas no fundo eu nunca me dei conta até ser tarde demais.

Foi, quase certamente, a relação mais intensa mas também a mais tóxica da minha vida. Penso que é impossível superar isto (é melhor calar-me porque há sempre alguém pior que nós e não quero que o mal me venha bater à porta). 

Lembro-me de não te ter ali para mim. Lembro-me de estar sempre lá para ti, mas tu nunca quereres saber a mínima de mim, não como deverias querer saber, não como te deverias importar, não como deverias cuidar de mim. Chorei vezes e vezes sem conta, no ombro da amiga porque não podia permitir-me chorar em mais sítio nenhum. Ou era com ela, ou era durante a noite a ouvir música e a abafar o choro na almofada.

No fundo, eu cheguei a um ponto em que já não sabia daquilo que gostava e que deixei de ter opiniões próprias. Opinava sim senhor, mas tudo aquilo que queriam que eu opinasse, que eu dissesse. Eu já não pensava pela minha própria cabeça e foi por isso que não te disse das boas quando devia ter dito.

Quando me abri contigo sobre o facto de me sentir perdida, aquilo que me disseste foi algo tão simples como "Não sei porque te importas tanto e não sei porque andas tão perdida. Quer dizer, sei. És insegura e só queres saber das aparências, tal como os outros. Tornaste-te em mais uma, deixaste de ser autêntica e de ser diferente". Quando tentei debater dizendo que estavas a ser injusto comigo e que eu podia ser insegura mas não era hipócrita, de certeza absoluta, recebi como resposta algo tão desagrafável como "Por favor, tu nem sabes quem és. Não sabes o tipo de pessoa que és! Logo aí já dá para ver que só te deixas levar pelo que os outros querem que sejas. Tu não tens personalidade própria, quem o tem sabe quem é".

Foram palavras secas saídas da boca de quem mais me importava. Num tom que eu nunca tinha conhecido, não emitido por ti. Já o tinha ouvido muitas vezes do restante meio envolvente, mas tu eras diferente. Tu eras carinhoso e atencioso, não frio e duro. Sem coração, talvez.

Se tivesse sido hoje, eu ter-te-ia dito das boas. Ter-te-ia tirado as palavras da boca e nunca teria permitido que me falasses daquela maneira. Não iria ouvir e calar. Não iria baixar a cabeça com olhos de arrependimento como tantas vezes fiz após aquela. Teria falado em alto e bom som. Ter-me-ia sabido defender. Mas não soube quando era tempo.

Apesar de estar a referir o quão tóxica era a nossa relação e o quanto, por um lado me arrependo de ter cedido, sei reconhecer que houveram os bons momentos em que fomos mais que felizes. Nunca tinha sorrido tão verdadeiramente na vida. Nunca tive tanta luz e brilho. Nunca erradiei tanta energia positiva. Recordo e guardo ainda os momentos bons com carinho e penso que nunca os esquecerei. Farão sempre parte de mim, da pessoa que fui, da pessoa que me tornei à custa da experiência.

Com isto, e ainda a bater na mesma tecla, posso dizer que estou melhor hoje, sem ti. Prefiro que me bloqueies para que não me contactes de novo, prefiro não passar por tua casa, prefiro não cruzar-me contigo, prefiro não cruzar-me com ela, prefiro não me cruzar com o meu passado. Desde o dia em que me levantei e disse que estava cansada que brincassem comigo, desde que deixamos de falar e que te apaguei da lista de contactos, eu fiquei melhor. Eu aprendi muita coisa sozinha, aprendi a não depender de ninguém, aprendi que não preciso de ti ou de outro qualquer. A única coisa de que preciso sou eu própria, o resto é feitio

Acima de tudo, a única razão pela qual não me arrependo desta relação por completo, foi pelo quanto saí dela mais madura. Foi por ter aprendido muito durante este último ano. Foi por ter aprendido muito da nossa relação.

Aprendi a preocupar-me menos com a opinião alheia, aprendi a focar-me mais na minha pessoa e menos na imagem que os outros têm de mim, aprendi a cuidar de mim mesma e a tratar-me como uma rainha, aprendi a respeitar-me mas se houve algo que aprendi sobre este tempo contigo é que as tuas opiniões importavam mais que as minhas e não era assim que devia ser, não só relativamente a ti mas também relativamente a todas as relações que estableço na minha vida. Por essa razão, agradeço-te.

Obrigada por me teres ensinado tanto, por me teres feito crescer e amadurecer e por me teres feito ver o que eu quero para mim própria. Posso não saber quem sou, mas sei o que quero fazer e para onde quero ir, agora. Não preciso de ninguém que me guie, pois encontrei o caminho sozinha. Estou a descobrir o mundo na companhia dos meus amigos verdadeiros, todos os outros ficaram à porta do meu círculo da confiança. Só é bem-vindo quem me faz bem. Não preciso de estar com alguém como tantas vezes me fizeste crer, preciso de estar conectada comigo própria e, para isso, não é preciso saber que tipo de pessoa sou. Tudo isso é um fucking cliché, agora é tempo de viver e descobrir coisas novas. É altura de viver a minha juventude.

Portanto, obrigada por tudo e espero nunca mais ouvir falar ou ver-te novamente.

 

 

 

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